Quarta-feira, Janeiro 18, 2012

Cansados de Reformas Inúteis

A crónica desta quinzena no Correio da Educação.

Está em curso mais uma reforma curricular. Mais hora ou menos hora. Tira aqui e coloca ali. Reforçando a visão disciplinar do conhecimento. Decretando que os conhecimentos mobilizáveis para agir, conhecer, intervir e transformar o mundo e dar sentido à vida não têm dignidade curricular. Só o conhecimento puro (mesmo que seja o sistema nervoso da mosca que para “nada” serve) é que importante.
Está em curso uma suposta mudança de paradigma. Mas não se conhece o horizonte, a substância, a rota, o rumo. Vive-se na era do vazio, da incerteza e da ameaça. De cortes e de asfixia. Com os diretores das escolas transformados nos chefes de secretaria preenchendo formulários eletrónicos nas plataformas centrais. Com os professores cansados de tanta mudança inútil porque não toca no essencial.

E é inútil porque não é isso que faz os professores ensinar melhor. Que faz os alunos aprender mais. Que faz a organização escolar querer mudar de registo e de práticas. E pode ser até prejudicial porque há um enorme cansaço e desilusãonas escolas. Que esperam (mesmo que disso não tenham consciência) que seja possível um outro sentido para a ação profissional. Muito mais fundado na liberdade e na autonomia e no risco. Na possibilidade de autoria de normas próprias no campo da organização do conhecimento, do agrupamento dos alunos, na gestão do tempo.
Como o atesta a insuspeita OCDE (2010):

Les réformes ont un impact constant sur les structures superficielles et les paramètres institutionnels des écoles, mais il est beaucoup plus difficile d’agir sur les activités fondamentales et la dynamique des apprentissages de classe.

Justamente. Entre nós persiste esta ilusão. Precisamos de passar da ordem do mando para a ordem da autonomia e da responsabilidade. Da ordem do domínio e do controlo remoto para a ordem da criação local. Porque é isto que nos faz crescer. Porque é isto que nos faz querer. Como pessoas, como profissionais e membros de organizações que também podem aprender.

2 comments:

IC disse...

(Passo o comentário que deixei no FB)
Artigo muito bom, caro José Matias. Destaco: "Decretando que os conhecimentos mobilizáveis para agir, conhecer, intervir e transformar o mundo e dar sentido à vida não têm dignidade curricular." E o que mais me aflige é que a reforma curricular não é só economicista (o que se aceita muito mal quando se trata de Educação, mas ao menos haveria a desculpa da "crise"). O que mais me aflige é que creio que corresponde a autênticas convicções do atual ministro da educação que, com elas, se atreve a decretar opções extremamente redutoras da formação de crianças e jovens, as quais irão perdurar até não sabemos quando. E não se ouviram as vozes "sonantes" da Educação, o que foi lamentável, pois quando houve a intenção de eliminar as TIC as vozes e abaixo-assinados até fizeram efeito.

JMA disse...

Cara Isabel
Mas o diário da república é um vasto cemitério de leis... As escolas e os professores têm mais poder do que parece.