

Tem a Palavra
João Veiga
Comentário global do Seminário de 9 MARÇO - UCP
Cabe-me a mim uma tarefa fácil, mas paradoxalmente complicada, que é fazer um comentário global deste Seminário. Fácil porque já foi dito o que de mais importante havia para dizer, mas também complicada pela dificuldade em realçar os aspectos mais importantes, dada a riqueza das comunicações, e o pouco tempo que tenho.
Apesar disto, permitam-me abusar um pouco mais do vosso tempo e paciência para destacar um par de aspectos relevantes, mas com a promessa de ser breve.
1. Da fascinante comunicação do Professor Santos Guerra destacaria, em breves notas, o seguinte:
1ª nota – referiu Santos Guerra que “tudo aprendemos entre todos” e estou em crer que hoje muito aprendemos;
2ª nota – ficou claro que sem a abertura à crítica e à autocrítica as escolas nada melhoram no que é nuclear na sua missão;
3ª nota – dos sete princípios que enunciou para justificar a auto-avaliação, destacaria três:
i – faz-se a auto-avaliação por razões de profissionalidade docente, o que é importante quando se assiste à emergência de discursos que pretendem passar uma imagem desprofissionalizante dos docentes
ii – faz-se a auto-avaliação para promover a colegialidade, quer docente como inter-comunitária pois “a escola é um projecto partilhado”, como disse Santos Guerra;
iii – faz-se a auto-avaliação por razões de felicidade pois, muitas vezes, nos esquecemos de “aprender a ser felizes”, e que tão tristes andam as nossas escolas;
4ª nota – salientar que no que toca à tomada de iniciativa para começar a auto-avaliação, na minha opinião, a forma mais promissora das que apresentou é aquela que nasce da vontade da própria escola, podendo ou não contar com a ajuda de um “amigo crítico”;
5ª nota – em relação ao enunciado das dificuldades para fazer a auto-avaliação salientaria que a mais importante é não querer aprender com os fracassos mais do que se satisfazer só com os sucessos;
terminaria com uma nota final sobre a apresentação de Santos Guerra adaptando e parafraseando o final da história da borboleta azul dizendo:
“ depende de nós fazer a auto-avaliação nas nossas escolas pois está nas nossas mãos”
2. Passando agora ao primeiro painel da tarde, centrado nos resultados de investigações sobre a avaliação das instituições escolares, nas suas vertentes internas e externas:
a. em relação à investigação-acção de Ana Pinto, do AE de Marzovelos, de Viseu, sobre um estudo de caso centrado na Auto-avaliação de uma escola, gostava de chamar a atenção para três pontos:
1º – ainda em 2006/07 a auto-avaliação não era prática sistemática em muitas escolas, apesar do Dec. Lei nº 31/2002;
2º – a escola usou o modelo CAF, mas quero realçar que existem outros modelos usando metodologias mais qualitativas e ricas em informação, como é o caso do AE Sá Couto, de Espinho, que ouvimos no painel que agora acabou;
3º – em relação aos resultados quero realçar dois pontos:
i – o processo de auto-avaliação levou à produção de conhecimento, eu diria mais, à produção de “conhecimento informado”, como dizia Matias Alves de manhã;
ii – a auto-avaliação produziu mudanças vastas e profundas na escola, como se pretende com este procedimento.
b. já em relação à investigação de Carla Dias, do AVE Dr. Francisco Gonçalves Carneiro, de Chaves, sobre a “Avaliação externa e padrões de qualidade”, dada a exiguidade do tempo disponível, realçaria somente dois aspectos:
i – dos 4 padrões usados para fazer a meta-avaliação relevaria 2 deles, a exequibilidade (quer em meios humanos materiais a usar como do tempo disponível pata tal) e a utilidade porque a auto-avaliação só faz sentido se permitir a melhoria das escolas;
ii – foi identificado que os processos de auto-avaliação foram incipientes e informais. Dito isto, atrevo-me a perguntar a todos vós: O que se fez, desde 2002, para dotar as escolas de competências para realizar uma Auto-avaliação devidamente organizada e estruturada?
c. por fim Maria Ricardo, da Escola Secundária Manuel Laranjeira, de Espinho, mostrou-nos a importância da integração de apoios e avaliações externas na auto-avaliação, numa das suas componentes nucleares – os resultados escolares, como é o caso dos apoios prestados pelo Programa AVES. Esses apoios permitem incluir nos trabalhos da avaliação interna, de uma forma contextualizada e comparada, a análise e a informação pertinente sobre o “valor acrescentado” que a instituição produziu nos seus alunos, na linha do que a actual investigação educacional chama “o efeito escola”.
3. Do painel que acabamos de presenciar, onde vimos uma amostra das práticas de auto-avaliação e melhoria, apresentada por três das muitas Escolas e Agrupamentos com quem o SAME/UCP colabora, destacaria:
- o pormenorizado trabalho inicial de organização, planificação e descentralização executiva, do grupo de auto-avaliação do AVE de Castelo de Paiva que, apesar da existência da pressão de uma Avaliação Externa eminente (realizada na passada semana), visando dar passo seguros no caminho para a instituição de uma cultura de auto-avaliação sustentada. Desses passos destacaria, por inovador, a criação de um blog específico, para potenciar uma maior visibilidade do seu trabalho e possibilitar uma mais fácil interacção e troca de informação com toda a comunidade educativa. Refira-se, a propósito, que ela está geograficamente dispersa por uma vasto território (foi um dos primeiros mega-agrupamentos criados e continua em vias de crescimento);
- já o Agrupamento de Escolas Sá Couto, de Espinho, encontra-se noutra fase dos seus trabalhos, a concluir a recolha de informação pertinente para traçar um Perfil de Auto-avaliação da Escola, junto dos diversos agrupamentos de actores (professores, alunos, pais e EE e pessoal não docente). Para isso está a usar a metodologia preconizada no Projecto “Pontes para além das fronteiras”, coordenado pelo Prof. John MacBeath. Esse trabalho pretende recensear um conjunto de pontos fracos e fortes, bem como identificar os seus constrangimentos e potencialidades, para depois partir para a elaboração e execução fundamentada de planos anuais de melhoria e para a reelaboração do Projecto Educativo de Agrupamento;
- finalmente, a Escola Secundária de Rio Tinto, já com uma cultura de auto-avaliação instituída, procura agora realizar uma meta-avaliação, ou seja, uma avaliação dos seus mecanismos de auto-avaliação, de forma a conseguir obter dados e respostas que lhes permitam melhorar ainda mais os seus resultados e a qualidade do seu funcionamento, numa atitude permanente de melhoria contínua.
Tivemos assim três retratos de instituições que se encontram em estados diferentes de desenvolvimento dos seus trabalhos de auto-avaliação, mas com uma finalidade comum – a melhoria da qualidade do serviço educativo que prestam.
Finalizo, evocando de novo o Professor Santos Guerra, para realçar uma vez mais, que a avaliação interna ou a auto-avaliação institucional, mais do que um imperativo legal associado à avaliação externa das escolas, deve colocar-se ao serviço de uma escola que reflecte sobre si mesma e que aprende, ou seja, que “se olha ao espelho”, citando de novo Santos Guerra.
Dito isto resta-me renovar o agradecimento do SAME da UCP pela vossa presença, e desejar-vos um bom regresso. Bem hajam.
João Veiga