

Alimentado da terra e do ar. Horizontalidade e verticalidade. Procura de saídas para as muitas asfixias. Esperança, apesar de tudo. Compaixão. Razão. Emoção. Procurando fazer do ofício docente o primeiro de todos os ofícios
Em post recente convidava os autores políticos a explicarem as razões destas decisões precipitadas da construção forçada, claramente ilegítima, e de legalidade duvidosa dos mega-agrupamentos. Na minha boa-fé cidadã admitia que poderia haver motivos razoáveis, técnica e/ou politicamente sustentados que, ao menos, aliviassem esta pressão de absurdo. A primeira razão, fundada na razão económica, rapidamente se obscureceu pois as poupanças das conglomerações estavam longe de justificar a medida. Por aqui não poderia vir a demonstração da bondade da imposição.
Nos casos em que havia défice de autoridade consentida; fluidez de compromissos em torno de um projecto educativo aglutinador; onde as dinâmicas de comunicação e articulação eram frágeis ou inexistentes; onde a lógica do simulacro e do faz de conta marcavam a acção do quotidiano; onde as relações entre as pessoas eram já marcadas pelos tiques burocráticos; onde as pessoas eram sobretudo números num jogo de xafrez impessoal; onde as escolas eram sobretudo lugares de desencontros... a imposição dos mega-agrupamentos vai constituir-se um grave problema organizacional que demorará muitos anos a atenuar.


A teoria da anarquia organizada surgiu a partir dos anos 70 do século passaso (Cohen, March, Olsen) para compreender o funcionamento das organizações que apresentavam objectivos inconsistentes, vagos e mal definidos, em que as ideias estruturantes do ethos do lugar eram dispersas, soltas e desagregadas; em que os processos utilizados resultavam de procedimentos improvisados e em que cada actor se dedicava de maneira diferente à sua participação na organização. Por outro lado, a tomada de decisões tendiam a ser desordenadas, imprevisíveis, caóticas e improvisadas, ganhando relevo a metáfora do caixote do lixo decisional; os sistemas organizacionais (comunicação, por exemplo...) são debilmente articulados e existe vulnerabilidade relativamente ao ambiente externo, turbulento e incerto.

Já por diversas vezes aqui sustentei que a criação intempestiva e forçada dos mega-agrupamentos estão a ser (vão ser) um Erro Crasso e parecem colher a simpatia de um número indeterminado de municípios que vêem nesse processo uma forma de acederem ao controlo das escolas secundárias.
É difícil diferenciar sozinho. No mínimo, deve-se negociar com os colegas mais próximos e com a administração para ampliar os graus de liberdade com relação ao programa, à avaliação, ao emprego de tempo e do espaço: toda diferenciação pedagógica obriga a trapacear mais ou menos discretamente com as normas do estabelecimento. De preferência, deve-se trabalhar com os pais, para associá-los a um contrato de trabalho ou, ao menos, para evitar as ações discordantes, por exemplo, a repressão por parte da família no momento em que o professor se esforça para elevar a auto-estima de seu aluno (Montandon e Perrenoud, 1987).
A diferenciação deveria estar, sobretudo, a cargo de uma equipa pedagógica por muitas razões evidentes: divisão do trabalho, reforço mútuo, continuidade ao longo do curso, descompartimentação, multiplicidade de visões sobre os alunos e de estratégias de intervenção, acúmulo e partilha de experiências, etc. Ora, trabalhar em equipe é assumir o luto de sua autonomia e de sua loucura pessoal. É conceder aos outros, por uma boa causa e sem os mecanismos de defesa que conservam a hierarquia a distância, um direito de observar as práticas aplicadas, um direito e um dever de ingerência na sala de aula. É romper com a "lei ambienta!" dos professores: "Cada um por si; depois de fechar a porta, eu é que mando na sala e não me intrometo no que os meus colegas fazem". É enfrentar a diferença, o conflito, os problemas de comunicação e de poder entre adultos. No entanto, uma diferenciação eficaz tem esse preço. Todos aqueles que têm experiência de trabalho em equipe pedagógica sabem que precisam assumir o luto de uma forma de liberdade. É claro que também abandonam, no melhor dos casos, os sentimentos de impotência e de solidão que os acompanham. Aqui também é inútil negar o luto. É melhor trabalhar por aquilo que o justifique, em primeiro lugar pelos alunos, mas também pelos adultos!
o luto pelo poder magistral
Talvez esse seja o luto mais exorbitante para todos aqueles que optaram pelo ensino para propiciar um espetáculo permanente a um grupo, para estar sempre no centro dos acontecimentos, como maestro da orquestra, líder carismático, placa giratória (Ranjard, 1984). Talvez seja o luto mais fácil para todos aqueles que vivem o confronto com o grupo como uma ameaça ou um conflito ininterrupto, uma incerteza sempre reiniciada quanto a saber o que acontecerá com a relação de forças. Provavelmente no ponto em que o contrato pedagógico estiver mais degradado, melhor se aceitará o fato de ter de mudar de papel, de se tornar organizador, pessoa-recurso, mestre de apoio, criador de meios e seqüências didáticas geradas em parte sem o professor, oferecedor de feedbaek, negociador de contratos, inspirador desejos e projetos, mediador entre os alunos e outras fontes de informação ou enquadramento, em vez de magister único, detentor do saber e do poder na sala de aula.
o trabalho do luto
Diferenciar é assumir o luto de uma prática antiga, e isso jamais acontece sem hesitações e ambivalências. Inovar, nesse sentido, significa atribuir um status ao luto, verbalizá-Io, trabalhá-lo, declarar as resistências legítimas (Gather Thurler, 1993a) mais que apelar somente à racionalidade e à consciência profissional dos professores. Já mencionei em outra obra (Perrenoud, 1988a) a idéia de que a pedagogia de domínio é uma utopia racionalista, destinada a se chocar contra os interesses e as estratégias dos atores (alunos e professores) na organização. Podemos dizer o mesmo de toda pedagogia diferenciada. E a única solução - porta estreita, caminho espinhoso - é reconhecer essa contradição e elaborá-la com os interessados.
Perrenoud, Ibidem

Como sugerem os estudos do ciclo de vida (Huberman, 1989), uma das perguntas que o professor se faz é: "Vou morrer com um giz na mão?". Trata-se de durar, de conseguir sobreviver algumas décadas em situações ao mesmo tempo desesperadoramente repetitivas e sempre imprevisíveis em seu detalhe. Daí vem a tentação, como em todas as profissões, de construir rotinas que funcionem sem exigir muita energia nem criatividade.
Quando não aceitamos mais que uma parte dos alunos fracasse, condenamo-nos a inventar constantemente soluções originais para os alunos que resistem aos procedimentos padronizados. Podemos conservar as rotinas que convêm aos alunos que aprendem sem dificuldade, mas isso é para refletir melhor sobre os problemas sempre singulares dos alunos em dificuldade. Portanto, diferenciar é questionar constantemente a organização da sala de aula e das atividades para jogar com os limites de tempo e de espaço, para tirar o melhor partido das possibilidades de agrupamento e de interação. Os professores que praticam uma pedagogia diferenciada apóiamse em esquemas básicos, mas sua preocupação com a eficácia leva-os a remodelar periodicamente o funcionamento do grupo-classe.
Philippe Perrenoud, Ibidem

" Era uma vez um granjeiro[1] que criava galinhas. Era um granjeiro incomum, intelectual e progressista. Estudou administração para que sua granja funcionasse cientificamente. Não satisfeito, fez um doutorado em criação de galinhas. No curso de administração aprendeu que, num negócio, o essencial é a produtividade. O improdutivo dá prejuízo; deve, portanto, ser eliminado.
As pedagogias que se acomodam ao fracasso escolar podem repetir todos os anos, enquanto o programa não muda, transposições e sequências didáticas que foram aprovadas por alunos médios ou bons. Para os alunos em dificuldade, não há método garantido; a relação com o saber, a divisão dos conteúdos, as sequências de aprendizagens deveriam ser reconstruídas em função de um caso concreto, em um funcionamento inspirado em um procedimento clínico.
Uma parte das práticas pedagógicas tem a única função de dar prazer ao professor: tratar de assuntos de que ele gosta (mas de importância bastante secundária), animar atividades coletivas agradáveis (mas ineficazes geradoras de desigualdade), improvisar conforme o humor, passar horas
Há fatalismos e fatalismos. Não lutamos da mesma maneira contra o fatalismo genético ("Não importa o que se faça, sempre haverá ... ") e contra o fatalismo sociológico ("Aqui e agora, não posso fazer nada").
“Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas. Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controlo. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem de voar.Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado”
Estamos en época de evaluación del alumnado. El estamento más bajo de la escala académica recibe evaluaciones inexorables. Hacia arriba en esa escala va disminuyendo la evaluación. Al decir esto pienso en las jerarquías y pienso en las instituciones. La única manera que tienen las instituciones de mejorar lo que hacen es someter a un riguroso análisis su estructura y funcionamiento. Si se justifica todo desde la óptica de la buena intención (se hace lo que se puede), de la rutina (siempre se ha hecho así) o de las mala actuación ajena (la culpa es de los otros), la institución seguirá anclada en sus errores.
No se puede mirar para otra parte cuando algo falla. No se puede mirar sólo a los demás para que mejoren sus actitudes o sus comportamientos. Es preciso hacer autocrítica y abrirse a la crítica de los demás.
Sucedió hace ya algunos años. En una reunión de la Junta de Facultad, el señor decano leyó una carta que habían enviado varias exalumnas. En ella expresaban con bastante crudeza lo que había supuesto su paso por la Facultad. Era una ocasión magnífica para repensar, a luz de aquellas opiniones, la calidad de la práctica cotidiana que los profesionales de la enseñanza universitaria desarrollábamos cada día.
El decano leyó, entre murmullos, aquel escrito y, antes de terminar, había varias manos levantadas pidiendo la palabra.
- Señor decano, ¿está firmado ese cristo?
- Sí, ¿por qué?
- Porque voy a denunciar a estas personas en un juzgado de guardia por lo que dicen de la Facultad y del profesorado.
Resulta que en algunas asignaturas que se imparten en esa Facultad en las que se trabaja la evaluación de instituciones han tenido que estudiar (y repetir) que para hacer una evaluación rigurosa de una institución es preciso liberar la voz de los protagonistas. Pero, cuando ellas pretenden hacer aquello que estudiaron, las quieren llevar al juzgado.
Otro miembro de las Junta dijo:
- Según lo que he oído, quienes firman el documento no son alumnas sino exalumnas. ¿Qué tienen que decir ahora de lo que se hace aquí? ¿Por qué no lo dijeron cuando estaban?
Bueno, respondámonos con sinceridad. ¿Por qué no lo dijeron cuando estaban? ¿Gozaban de libertad para hacerlo? ¿Mostramos interés en saberlo? ¿Preguntamos?
Un tercer profesor levantó la mano para decir lo siguiente (no son palabras literales, claro está):
- Señor decano, este escrito ¿qué naturaleza tiene? ¿Es una denuncia, es un informe, es una carta?
- Es una carta.
- ¿Piden que contestemos?, añadió
- No. No piden nada. Sencillamente han enviado la carta.
- Pues si no piden que contestemos, bastante hemos hecho ya con escuchar lo que dicen. Pasemos al punto siguiente del orden del día y no perdamos más tiempo.
Hubo una cuarta intervención:
- Veo que aquí hay cierto nerviosismo y cierta irritación, pero esto hay que entenderlo. Seguramente que algún profesor fue duro con ellas en alguna calificación y ahora están bajo el síndrome de la venganza. Pero, cuando esto se les pase ya comprenderán todo lo que la Facultad hizo por ellas.
Tomé entonces la palabra para decir dos cosas: una, para pedir que se escribiera una carta de agradecimiento a las exalumnas por el tiempo que habían perdido al redactar y enviar el escrito; otra para decir que nosotros no teníamos remedio, que si ese documento no nos hacía preguntarnos sobre lo que hacemos, no nos ayudaba a reflexionar sobre nuestra tarea, estábamos condenados a repetir los errores.
¿Cómo cambiar si no nos interrogamos? ¿Cómo mejorar si no ponemos en tela de juicio nuestras prácticas? ¿Cómo vamos a transformar la realidad si no escuchamos las opiniones de los destinatarios de nuestra actividad, si no comprobamos lo que sucede con su aprendizaje? Parece que lo importante es que nosotros enseñemos, no que ellos aprendan.
Lo que decían las exalumnas en su escrito era muy preocupante: que se aburrían en las clases, que había muchas contradicciones entre lo que se enseñaba y lo que hacía, que las prácticas eras demasiado breves, que las clases estaban masificadas, que no se cumplían las horas de tutoría…
Deberíamos pagar estas opiniones, buscarlas, sistematizarlas. Sería necesario que quien sale de una Facultad nos diga si la preparación recibida le sirve o no para afrontar la responsabilidad profesional. Las instituciones educativas viven de espaldas a su éxito o fracaso e, incluso, despreocupadas por identificar lo que se entiende por éxito o fracaso. ¿Cómo se puede mirar para otra parte? ¿Cómo se pueden echar tantos balones fuera?
Semanas después de este hecho me pidieron una texto sobre evaluación de instituciones para unas Jornadas que se iban a celebrar en Medina del Campo. Comencé contando lo que había vivido en mi Junta de Facultad. El texto se publicó y uno de los colegas que lo leyó (magnífico colega que lee lo que otros compañeros escriben), me invitó a tomar café.
- ¿Cómo se te ha ocurrido comenzar el relato sobre aquel incidente de la Junta diciendo “en mi Facultad”? Si quieres contarlo cuéntalo, pero diciendo “en una Facultad…”, porque todo el mundo sabe dónde trabajas. Le contesté con una pregunta:
- ¿A ti qué te preocupa, que pase o que se sepa que pasa? Es como si en un Hospital, le dije, el cirujano que saca un cadáver tras otro del quirófano sólo estuviese preocupado de que no se supiese dónde se producen esas muertes.
Las instituciones necesitan analizar sus prácticas, revisar su estructura y evaluar su funcionamiento. Hay cosas que pueden ir mal. Pero no se puede atribuir todo el fracaso a causas ajenas a la institución. Habrá en otros agentes una parte de responsabilidad, pero una buena parte de ella será de la institución. La primera exigencia para poder corregir las deficiencias es conocerlas, analizarlas y comprenderlas. La segunda es no conformarse con ellas y la tercera tratar de corregirlas con rapidez y rigor.
Miguel Santos Guerra. Fonte

É cómodo acreditar que há crianças dotadas e outras não e que "não há nada a fazer". Para ser tentado por esse fatalismo, não é preciso ser conservador, inatista, elitista, racista. Mesmo os que lutam contra o fracasso escolar passam por momentos de dúvida: é muito difícil fazer aprender, suscitar vontade, criar condições de desenvolvimento, de autoestima, de atividade.
No entanto, diferenciar o ensino é assumir o luto por representações deterministas, ao mesmo tempo desesperadoras e confortáveis, de ordem filosófica, científica, pedagógica e prática. É aceitar que nada se determina "no momento do nascimento" ou "antes dos seis anos". É afirmar, junto com o CRESAS (1981), que "o fracasso escolar não é uma fatalidade"; é acreditar, com Bloom (1979), que 80% dos alunos podem dominar 80% do programa se forem colocados em condições adequadas de aprendizagem; é aceitar uma responsabilidade, às vezes uma culpa, bastante pesadas.
Philippe Perrenoud, Obra citada


Toda situação didática proposta ou imposta uniformemente a um grupo de alunos é inadequada para uma parcela deles. Para alguns, pode ser dominada facilmente e, por isso, não constitui um desafio nem provoca não aprendizagem. Outros, porém, não conseguem entender a tarefa e, por isso. não se envolvem nela. Mesmo quando a situação está em harmonia com o nível de desenvolvimento e as capacidades cognitivas dos alunos, pode parecer desprovida de sentido, de interesse, e não gera nenhuma atividade notável em nível intelectual e, por conseguinte, nenhuma construção de novos conhecimentos nem um reforço das aquisições. Por esse motivo, uma definição possível da diferenciação do ensino é a seguinte: diferenciar é organizar as interações e as atividades, de modo que cada aluno seja confrontado constantemente, ou ao menos com bastante freqüência, com as situações didáticas mais fecundas para ele.
Passo pela história das pedagogias compensatórias e das pedagogias de apoio, pela crítica das noções de handicap sociocultural ou de pobreza, para colocar o problema em termos sistémicos: quando nos encontramos diante de alunos diferentes, que não têm nenhuma razão de aprender a mesma coisa se tratados uniformemente, o que fazer? Já conhecemos as respostas em seu princípio: individualização dos percursos e dos ritmos, com base em objetivos de domínio claros e realistas, com uma regulação contínua das intervenções educativas e das situações didáticas fundamentadas em uma observação formativa, intuitiva ou instrumentada. Podemos chamar de pedagogia diferenciada todo dispositivo que permita essa "gestão" individualizada das aprendizagens. Da pedagogia de domínio proposta inicialmente por Bloom (1976) às pedagogias diferenciadas de inspiração mais interacionista e construtivista, há uma continuidade no princípio de regulação, mesmo se os dispositivos, as teorias de referência e os instrumentos divergirem.