A premissa é que as escolas precisam de amigos. Há um consenso alargado sobre o facto que não é difícil as escolas serem ilhas de excelência, auto-suficientes, num mundo em mudança acelerada e em que o crescimento do conhecimento é exponencial. A mais valia para a escola é ter uma perspectiva externa, um ponto de referência e uma ligação com um campo mais vasto de conhecimento. O apoio externo e o trabalho em parceria com um ‘olhar iluminado’ pode ser motivador e desafiante. A ideia de amigo crítico é poderosa, talvez por causa da tensão que lhe está inerente: os amigos dão um apoio positivo incondicional, enquanto que os críticos são condicionais, negativos e intolerantes ao fracasso. A reconciliação destas faces de Janus depende de um casamento de sucesso entre o apoio incondicional e a crítica incondicional. Exige, segundo Sarason (1986), uma ‘sensibilidade delicada’:
Para um estranho, abordar o pessoal escolar sem ser sensível aos seus sentimentos e atitudes ... é garantir que as hipóteses de conseguir o efeito desejado são muito poucas. (Sarason, p. 12)
O amigo crítico, numa fase inicial do seu relacionamento com a escola, tem de tentar penetrar e estar próximo daquilo que ‘é’ a escola a partir de diferentes perspectivas e o que a mudança pode significar para os pontos de vista divergentes.
De um ponto de vista psicológico, podemos dizer que sem amigos é difícil viver com críticos. Está implícito no conceito de amigo crítico que este introduza um qualquer desafio para a escola numa abordagem amiga e apoiante. É suposto ser uma relação colegial em que as pessoas se possam ouvir umas às outras, avaliar as ideias abertamente e falar sem medos ou censuras.
Consequentemente, o conceito de amigo crítico funciona na base da tensão inerente entre uma atitude crítica face à escola para desafiar a sua prática, e o apoio incondicional das pessoas envolvidas de modo a que se sintam aceites e ouvidas. Esta tensão é gerida pelo amigo crítico com base num repertório de competências como as que se referem na lista de verificação infra:
Abertura
O amigo crítico tem agendas ocultas ou é aberto?
Ouvir
O amigo crítico é um bom ouvinte, sendo por isso sensível às necessidades dos diferentes indivíduos e grupos de actores da escola?
Compreender
O amigo crítico tem um bom entendimento do contexto da escola (estrutura e cultura)?
Aconselhar
O amigo crítico é capaz de dar conselhos úteis?
Relacionamento com professores
Como é que o amigo crítico se relaciona com os professores que são a força motriz da melhoria da qualidade da escola?
Comunicação
Em que medida é que o amigo crítico é capaz de comunicar as suas ideias?
Desafio
O amigo crítico é suficientemente desafiador para que as suas críticas tenham algum impacto na escola?
RecursoO amigo crítico é um bom recurso para a escola?
É evidente que nem todas as competências sugeridas pelas escolas participantes se ajustam ao perfil daqueles que foram apanhados no papel de amigos críticos. Eles trazem consigo a sua experiência pessoal e profissional, a sua história de outras escolas e os seus sucessos e fracassos anteriores. A relação que são capazes de estabelecer logo nos seus primeiros dias na escola é também um factor crítico.
O trabalho dos amigos críticos será afectado de forma significativa pela natureza da sua relação com a escola – de curta ou longa duração – e pela formalidade ou informalidade do seu papel. (...)
O eixo vertical refere-se à formalidade e o eixo horizontal refere-se à duração da relação com a escola. A intersecção dos dois eixos dá origem a quatro quadrantes, cada um dos quais descreve um tipo de relação diferente entre o amigo crítico e a escola.
Uma relação altamente estruturada e de curta duração é normalmente estabelecida quando a escola necessita apoio numa fase crítica. Quando a escola precisa de uma visão externa sobre um determinado assunto, o director ou alguém (professores ou pais, por exemplo) podem solicitar um apoio externo por um certo período de tempo. Pode ser o caso em que a escola esteja a desenvolver um processo de auto-avaliação e queira informação sobre zonas obscuras das conclusões. O feedback de um amigo crítico que seja simultaneamente compreensivo, mas ainda assim crítico, pode ajudar a explorar algumas das complexidades e ambiguidades dos resultados obtidos. O ‘recrutamento’ do amigo crítico é geralmente um processo formal que envolve os órgãos com poder de decisão de modo a obter um acordo sobre a adequação do amigo crítico à situação e à tarefa.
Uma intervenção do amigo crítico informal e de curta duração é normalmente necessária quando a escola enfrenta um problema momentâneo que não é capaz de resolver sozinha. Por exemplo, se a escola enfrenta uma acusação feita por alguém do exterior (por exemplo, pela imprensa), o director pode entrar em contacto com alguém que conhece pessoalmente e que tem alguma experiência no trabalho com a comunicação social para que a escola reaja pronta e profissionalmente, uma vez que os constrangimentos de tempo tornam frequentemente difícil contratar alguém através de um longo processo de selecção. Uma escola referiu que precisavam de apoio na análise dos dados de um questionário. Um professor conhecia alguém da universidade a quem pediu ajuda nessa ocasião. Foram precisas apenas duas reuniões com a equipa responsável para esclarecer a tarefa.
Uma relação informal e de longa duração acontece normalmente quando existe uma cooperação pouco firme entre a escola e um departamento da universidade. Um exemplo é quando professores estagiários estão colocados numa escola e o seu orientador ao nível da faculdade estabelece uma relação com a escola. De vez em quando a escola aproveita as visitas do orientador e pede-lhe que fique mais algum tempo e aproveitam para discutir desenvolvimentos recentes. O orientador gosta deste contacto directo com a escola e pode estar disposto a coordenar outros estudos. Neste tipo de relação informal e de longa duração, os amigos críticos conhecem normalmente muito bem a cultura da escola, a sua história e as suas micropolíticas. Com este contacto regular, pode construir-se uma relação de confiança entre os parceiros, fazendo dos amigos críticos recursos valiosos para a escola.
Uma relação bastante estruturada e de longa duração existe quando as escolas contratam uma entidade externa como, por exemplo, uma empresa de consultoria. Nestas circunstâncias, esboça-se um contrato, que constitui a base da cooperação e contém os procedimentos de trabalho para uma relação formal entre a escola e os consultores. Quando este contrato existe, é difícil pedir uma intervenção espontânea porque as fases de planificação são muito demoradas. A vantagem desta relação é o distanciamento entre o amigo crítico e os vários actores, ao passo que numa relação informal há normalmente uma maior familiaridade entre os indivíduos ou os pequenos grupos.
(...)
Competências chave de um amigo crítico
Devido à complexidade do trabalho envolvido, o amigo crítico tem de reagir às situações do momento quando lhe é pedido ou quando visita a escola. Por isso, devem ser competentes em tudo o que a situação exige.
É óbvio que não se podem encontrar todas estas competências nas pessoas que desempenham o papel de amigo crítico. Eles só podem agir em função do seu passado ou do trabalho diário no projecto europeu. Os amigos críticos têm uma grande variedade de antecedentes: formadores, investigadores, professores universitários (em diferentes áreas de investigação que vão da educação à filosofia), membros de autarquias, pais, consultores, avaliadores profissionais, gestores de negócios, psicanalistas, oficiais da marinha, directores de escola (de outra escola; aposentados). Por isso, não é surpreendente ouvir uma escola comentar sobre o amigo crítico nestes termos: “Ela era simpática e bem intencionada, mas em termos de metodologia e de facto começar a compreender e a trabalhar os tópicos, o seu envolvimento e desempenho deixou muito a desejar.” Os próprios amigos críticos, porém, também assinalaram a tensão inerente causada por terem de ser simultaneamente críticos e compreensivos. A Fig. 12.4constituída a partir das experiências das pessoas relativamente aos seus amigos críticos, ilustra seis papéis distintos e o comportamento relevante para cada um deles.
Conselheiro científico
Dá conselhos úteis
Dá uma ideia clara dos pontos fortes e fracos da escola
Informa relativamente a materiais sobre auto-avaliação e desenvolvimento escolar
Fornece métodos e outro apoio
Dá orientações claras sobre como implementar propostas
Partilha conhecimento
Cria qualidade através da reflexão, apoia na metodologia
Torna o trabalho mais ‘profissional’
Ajuda a preparar seminários
Organizador
Modera as reuniões
Cumpre os horários
Estrutura o processo
Ajuda na organização do trabalho do PAAE
Dá orientações para acções
Prepara as reuniões ou actividades que envolvem toda a escola
Comenta sobre discussões estratégicas
Define objectivos claros
Dirige grupos de trabalho de forma eficaz
Motivador
Encoraja e dá confiança
É um bom ouvinte
Cria um sentimento de importância do projecto para a escola
Exige mais da escola
É inspirador e encorajador
Impede os participantes de serem muito ambiciosos
Torna a auto-avaliação compreensível
Ajuda a encontrar novas ideias
Faz com que o trabalho continue
Avança por pequenos passos
Dá uma ideia para onde vão as coisas
Promove actividades de continuação
Ajuda a ultrapassar conflitos
Ajuda a focalizar
Encoraja uma atitude positiva em relação a trabalho colaborativo
Ajuda na motivação dos alunos e na cooperação dos pais no projecto
Prepara os grupos de acção para moldarem de novo os instrumentos de trabalho
Facilitador
Gere emoções
Mantém o equilíbrio entre questões pessoais e questões profissionais
Dá ênfase aos aspectos de contexto no processo de aprendizagem na escola
Faz perguntas sobre relações interpessoais
Membro da rede
Constrói redes
Sugere parceiros possíveis no exterior / de outras escolas
Ajuda na constituição de equipas, reforça a cooperação entre escola e trabalho
Faz de pessoa de contacto com estagiários e a instituição de formação do ensino superior
Elemento Externo
Traz uma visão externa, é crítico do ‘vulgar’
Ocasionalmente contra-argumenta
Cria múltiplas perspectivas, espelha as percepções individuais
Desenvolve a coerência entre os diferentes pontos de vista
Questiona a escola sobre aspectos organizacionais
Analisa a escola da perspectiva de uma outra empresa
in J. MacBeath e outros. A História de Serena.