Os teóricos em ciências organizacionais consideram, frequentemente, que é impossível descrever a eficácia das organizações de maneira simples. Ao nível da interpretação deste conceito, a atitude pluralista é mesmo a mais corrente. A interpretação escolhida dependeria, pois, da teoria organizacional e dos interesses específicos nos quais se inspiram aqueles que põem a questão da eficácia (Cameron e Whetten, 1983, 1985; Faerman e Quinn, 1985). Por isso, parece sensato apresentar, brevemente, os principais modelos organizacionais que formam a essência de numerosas definições da eficácia.
Racionalidade económica
A definição económica da eficácia, enunciada acima, assenta na ideia segundo a qual o funcionamento das organizações é regido por princípios racionais, quer dizer, realização de objectivos bem definidos. Estes objectivos, que podem ser traduzidos sob a forma operacional de output a atingir, servem de base para escolher os critérios de efeito (por critérios de efeito entende-se as variáveis utilizadas para medir efeitos, tais como o nível dos alunos, o seu bem estar, etc). Pode-se, assim, falar de racionalidade económica logo que os objectivos são expressos em termos de output do processo primário de produção da escola. No quadro do funcionamento global de uma escola, outros objectivos podem igualmente desempenhar um papel: conduzir uma política deliberadamente orientada para o aumento da taxa de inscrição é um exemplo. Uma escola que persegue um tal objectivo pode funcionar segundo um esquema racional, mesmo se este objectivo não dependa especificamente do campo conceptual da racionalidade económica. A eficácia, tal como é definida num contexto de racionalidade económica, pode ser também caracterizada como a produtividade de uma organização. Tyler (1950) dá, neste âmbito, o exemplo, bem conhecido do modelo racional ou orientado que é utilizado para a elaboração dos programas escolares e a avaliação da educação. Em comparação com outros modelos organizacionais que são apresentados resumidamente mais adiante, o modelo de racionalidade económica parece demasiado simplista e inacessível para dever ser tido em conta. No domínio do ensino, com efeito, é – como cada um sabe – difícil de chegar a um consenso sobre objectivos e, ainda mais, de os traduzir sob uma forma operacional e quantificável. Se se admite que existem, fora da produtividade, outros valores susceptíveis de desempenhar um papel assim tão importante no funcionamento das organizações, pode-se, unicamente, reconhecer o carácter simplista do modelo racional.
O modelo de sistema orgânico
No modelo de sistema orgânico, as organizações são comparadas a sistemas biológicos que se adaptam ao seu meio ambiente. Por outras palavras, e é a característica essencial desta abordagem, as organizações interagem livremente com o meio exterior. As organizações não são objectos passivos, submetidos a manipulações exteriores, porque elas próprias podem exercer uma influência sobre esse meio ambiente. A este propósito é interessante mencionar a importância preponderante que aqui é dada à «sobrevivência» da organização num meio por vezes hostil. A flexibilidade da organização é, pois, uma condição essencial para preservar os recursos e o outro input essencial. Neste modelo, a flexibilidade e a adaptabilidade são, portanto, os principais factores de eficácia, quer dizer, de sobrevivência. Pode, assim, medir-se a eficácia da escola pela taxa anual de inscrições, quer dizer um número sobre o qual uma política comercial ou de marketing intensivo pode, em parte, intervir.
Se esta teoria da eficácia pode surpreender à primeira vista, o eco é bem maior num domínio científico totalmente diferente – a microeconomia do sector público. Como é demonstrado por Niskanen (1971), os organismos do sector público têm como principal objectivo a optimização do seu orçamento e as medidas externas, que visam incitar estes organismos – compreendendo as escolas – para mais eficácia e eficiência são insuficientes. Neste contexto, interessa estudar se, no quadro da sua política comercial, as escolas se aplicam, prioritariamente, a privilegiar as suas infraestruturas (input) ou os resultados obtidos pelos seus alunos nos exames dos anos anteriores (output).
Um último ponto merece ser sublinhado. Se o modelo de sistema orgânico concede um lugar preponderante ao input, não nos podemos abstrair do output a atingir. É o caso, por exemplo, das situações em que o ambiente subordina a disponibilidade do input à quantidade ou qualidade dos resultados anteriores (output).
A abordagem organizacional orientada para as relações humanas
Quando o modelo organizacional de sistema aberto está voltado para o ambiente, a abordagem dita das relações humanas é, pelo contrário, auto-centrada. De tradição relativamente clássica, esta escola de pensamento organizacional, muito pouco mudou, mesmo nas suas últimas caracterizações organizacionais. Encontram-se, assim, no conceito de burocracia profissional, definido por Mintzberg (1979), certos aspectos da abordagem orientada para as relações humanas, por exemplo o relevo dado ao bem estar dos indivíduos no seio de uma organização e a importância de um clima consensual, de relações colegiais, assim como uma motivação e uma valorização dos recursos humanos. Nesta perspectiva, a satisfação profissional dos funcionários e a sua implicação na organização são critérios perfeitamente apropriados para medir as características organizacionais mais desejadas. Para os teóricos da organização, que partilham desta visão, estes são os critérios da eficácia.
A burocracia
No que diz respeito à administração e estrutura das organizações, em particular organizações, como as escolas que são compostas de uma miríade de sub-unidades relativamente autónomas, o problema maior consiste em encontrar os meios de criar um conjunto harmonioso. Várias soluções se apresentam: desenvolver as interacções sociais e as possibilidades de desenvolvimento individual e profissional (a abordagem orientada para as relações humanas) ou ainda organizar estas relações sociais num quadro formal e claramente definido. O protótipo de uma organização, caracterizada pela formalização dos lugares e das funções é a «burocracia». O critério de eficácia é, então, a certeza da continuidade da estrutura organizacional existente. Ninguém ignora que as organizações burocráticas têm tendência a gerar uma maior burocracia. A sua causa profunda é a necessidade de garantir a continuação ou, melhor ainda, a prosperidade do seu próprio serviço. Esta continuação pode, igualmente, agir como critério de efeito.
O modelo organizacional político
Alguns teóricos das ciências da organização comparam as organizações a campos de batalha políticos (Pfeffer e Salancik, 1978). Do seu ponto de vista, os serviços, os empregados e o pessoal administrativo utilizam funções e objectivos oficiais com fins próprios e mais ou menos escondidos. Manter boas relações com instâncias exteriores poderosas é importante para a sua reputação ou a do seu serviço. Nesta perspectiva política, a eficácia da organização, no seu conjunto, é uma questão complexa. Sem dúvida é mais pertinente interrogarmo-nos até que ponto grupos internos se conformam com as exigências de certas instâncias exteriores visadas. Tratando-se da escola, podem ser o conselho de escola, pais ou meios de negócios à escala local.
Os conceitos organizacionais da eficácia, vimo-lo, dependem não somente da teoria escolhida para descrever os princípios que regem a constituição das organizações, mais também do estatuto dos que se interessam pela questão da eficácia. Sobre este ponto, as cinco teorias sobre a eficácia organizacional diferem. Assim, nos modelos de racionalidade económica e de sistema orgânico, os principais «actores» que põem a questão da eficácia são os órgãos directores da organização. Nos outros modelos, os actores que tentam produzir efeitos bem determinados são os chefes de estabelecimento e os empregados.
Jaap Sheerens. Melhorar a eficácia das escolas. Porto:ASA








