Terça-feira, Março 31, 2009

Teorias da eficácia organizacional

Os teóricos em ciências organizacionais consideram, frequentemente, que é impossível descrever a eficácia das organizações de maneira simples. Ao nível da interpretação deste conceito, a atitude pluralista é mesmo a mais corrente. A interpretação escolhida dependeria, pois, da teoria organizacional e dos interesses específicos nos quais se inspiram aqueles que põem a questão da eficácia (Cameron e Whetten, 1983, 1985; Faerman e Quinn, 1985). Por isso, parece sensato apresentar, brevemente, os principais modelos organizacionais que formam a essência de numerosas definições da eficácia.

Racionalidade económica

A definição económica da eficácia, enunciada acima, assenta na ideia segundo a qual o funcionamento das organizações é regido por princípios racionais, quer dizer, realização de objectivos bem definidos. Estes objectivos, que podem ser traduzidos sob a forma operacional de output a atingir, servem de base para escolher os critérios de efeito (por critérios de efeito entende-se as variáveis utilizadas para medir efeitos, tais como o nível dos alunos, o seu bem estar, etc). Pode-se, assim, falar de racionalidade económica logo que os objectivos são expressos em termos de output do processo primário de produção da escola. No quadro do funcionamento global de uma escola, outros objectivos podem igualmente desempenhar um papel: conduzir uma política deliberadamente orientada para o aumento da taxa de inscrição é um exemplo. Uma escola que persegue um tal objectivo pode funcionar segundo um esquema racional, mesmo se este objectivo não dependa especificamente do campo conceptual da racionalidade económica. A eficácia, tal como é definida num contexto de racionalidade económica, pode ser também caracterizada como a produtividade de uma organização. Tyler (1950) dá, neste âmbito, o exemplo, bem conhecido do modelo racional ou orientado que é utilizado para a elaboração dos programas escolares e a avaliação da educação. Em comparação com outros modelos organizacionais que são apresentados resumidamente mais adiante, o modelo de racionalidade económica parece demasiado simplista e inacessível para dever ser tido em conta. No domínio do ensino, com efeito, é – como cada um sabe – difícil de chegar a um consenso sobre objectivos e, ainda mais, de os traduzir sob uma forma operacional e quantificável. Se se admite que existem, fora da produtividade, outros valores susceptíveis de desempenhar um papel assim tão importante no funcionamento das organizações, pode-se, unicamente, reconhecer o carácter simplista do modelo racional.

O modelo de sistema orgânico

No modelo de sistema orgânico, as organizações são comparadas a sistemas biológicos que se adaptam ao seu meio ambiente. Por outras palavras, e é a característica essencial desta abordagem, as organizações interagem livremente com o meio exterior. As organizações não são objectos passivos, submetidos a manipulações exteriores, porque elas próprias podem exercer uma influência sobre esse meio ambiente. A este propósito é interessante mencionar a importância preponderante que aqui é dada à «sobrevivência» da organização num meio por vezes hostil. A flexibilidade da organização é, pois, uma condição essencial para preservar os recursos e o outro input essencial. Neste modelo, a flexibilidade e a adaptabilidade são, portanto, os principais factores de eficácia, quer dizer, de sobrevivência. Pode, assim, medir-se a eficácia da escola pela taxa anual de inscrições, quer dizer um número sobre o qual uma política comercial ou de marketing intensivo pode, em parte, intervir.

Se esta teoria da eficácia pode surpreender à primeira vista, o eco é bem maior num domínio científico totalmente diferente – a microeconomia do sector público. Como é demonstrado por Niskanen (1971), os organismos do sector público têm como principal objectivo a optimização do seu orçamento e as medidas externas, que visam incitar estes organismos – compreendendo as escolas – para mais eficácia e eficiência são insuficientes. Neste contexto, interessa estudar se, no quadro da sua política comercial, as escolas se aplicam, prioritariamente, a privilegiar as suas infraestruturas (input) ou os resultados obtidos pelos seus alunos nos exames dos anos anteriores (output).

Um último ponto merece ser sublinhado. Se o modelo de sistema orgânico concede um lugar preponderante ao input, não nos podemos abstrair do output a atingir. É o caso, por exemplo, das situações em que o ambiente subordina a disponibilidade do input à quantidade ou qualidade dos resultados anteriores (output).

A abordagem organizacional orientada para as relações humanas

Quando o modelo organizacional de sistema aberto está voltado para o ambiente, a abordagem dita das relações humanas é, pelo contrário, auto-centrada. De tradição relativamente clássica, esta escola de pensamento organizacional, muito pouco mudou, mesmo nas suas últimas caracterizações organizacionais. Encontram-se, assim, no conceito de burocracia profissional, definido por Mintzberg (1979), certos aspectos da abordagem orientada para as relações humanas, por exemplo o relevo dado ao bem estar dos indivíduos no seio de uma organização e a importância de um clima consensual, de relações colegiais, assim como uma motivação e uma valorização dos recursos humanos. Nesta perspectiva, a satisfação profissional dos funcionários e a sua implicação na organização são critérios perfeitamente apropriados para medir as características organizacionais mais desejadas. Para os teóricos da organização, que partilham desta visão, estes são os critérios da eficácia.

A burocracia

No que diz respeito à administração e estrutura das organizações, em particular organizações, como as escolas que são compostas de uma miríade de sub-unidades relativamente autónomas, o problema maior consiste em encontrar os meios de criar um conjunto harmonioso. Várias soluções se apresentam: desenvolver as interacções sociais e as possibilidades de desenvolvimento individual e profissional (a abordagem orientada para as relações humanas) ou ainda organizar estas relações sociais num quadro formal e claramente definido. O protótipo de uma organização, caracterizada pela formalização dos lugares e das funções é a «burocracia». O critério de eficácia é, então, a certeza da continuidade da estrutura organizacional existente. Ninguém ignora que as organizações burocráticas têm tendência a gerar uma maior burocracia. A sua causa profunda é a necessidade de garantir a continuação ou, melhor ainda, a prosperidade do seu próprio serviço. Esta continuação pode, igualmente, agir como critério de efeito.

O modelo organizacional político

Alguns teóricos das ciências da organização comparam as organizações a campos de batalha políticos (Pfeffer e Salancik, 1978). Do seu ponto de vista, os serviços, os empregados e o pessoal administrativo utilizam funções e objectivos oficiais com fins próprios e mais ou menos escondidos. Manter boas relações com instâncias exteriores poderosas é importante para a sua reputação ou a do seu serviço. Nesta perspectiva política, a eficácia da organização, no seu conjunto, é uma questão complexa. Sem dúvida é mais pertinente interrogarmo-nos até que ponto grupos internos se conformam com as exigências de certas instâncias exteriores visadas. Tratando-se da escola, podem ser o conselho de escola, pais ou meios de negócios à escala local.

Os conceitos organizacionais da eficácia, vimo-lo, dependem não somente da teoria escolhida para descrever os princípios que regem a constituição das organizações, mais também do estatuto dos que se interessam pela questão da eficácia. Sobre este ponto, as cinco teorias sobre a eficácia organizacional diferem. Assim, nos modelos de racionalidade económica e de sistema orgânico, os principais «actores» que põem a questão da eficácia são os órgãos directores da organização. Nos outros modelos, os actores que tentam produzir efeitos bem determinados são os chefes de estabelecimento e os empregados.


Jaap Sheerens. Melhorar a eficácia das escolas. Porto:ASA

Segunda-feira, Março 30, 2009

História de um letreiro

Amigo Crítico: papéis e comportamentos


Conselheiro científico
Dá conselhos úteis
Dá uma ideia clara dos pontos fortes e fracos da escola
Informa relativamente a materiais sobre auto-avaliação e desenvolvimento escolar
Fornece métodos e outro apoio
Dá orientações claras sobre como implementar propostas
Partilha conhecimento
Cria qualidade através da reflexão, apoia na metodologia
Torna o trabalho mais ‘profissional’
Ajuda a preparar seminários


Organizador
Modera as reuniões
Cumpre os horários
Estrutura o processo
Ajuda na organização do trabalho do PAAE
Dá orientações para acções
Prepara as reuniões ou actividades que envolvem toda a escola
Comenta sobre discussões estratégicas
Define objectivos claros
Dirige grupos de trabalho de forma eficaz


Motivador
Encoraja e dá confiança
É um bom ouvinte
Cria um sentimento de importância do projecto para a escola
Exige mais da escola
É inspirador e encorajador
Impede os participantes de serem muito ambiciosos
Torna a auto-avaliação compreensível
Ajuda a encontrar novas ideias
Faz com que o trabalho continue
Avança por pequenos passos
Dá uma ideia para onde vão as coisas
Promove actividades de continuação
Ajuda a ultrapassar conflitos
Ajuda a focalizar
Encoraja uma atitude positiva em relação a trabalho colaborativo
Ajuda na motivação dos alunos e na cooperação dos pais no projecto
Prepara os grupos de acção para moldarem de novo os instrumentos de trabalho


Facilitador
Gere emoções
Mantém o equilíbrio entre questões pessoais e questões profissionais
Dá ênfase aos aspectos de contexto no processo de aprendizagem na escola
Faz perguntas sobre relações interpessoais


Membro da rede
Constrói redes
Sugere parceiros possíveis no exterior / de outras escolas
Ajuda na constituição de equipas, reforça a cooperação entre escola e trabalho
Faz de pessoa de contacto com estagiários e a instituição de formação do ensino superior


Elemento Externo
Traz uma visão externa, é crítico do ‘vulgar’
Ocasionalmente contra-argumenta
Cria múltiplas perspectivas, espelha as percepções individuais
Desenvolve a coerência entre os diferentes pontos de vista
Questiona a escola sobre aspectos organizacionais
Analisa a escola da perspectiva de uma outra empresa


MacBeatth e outros. A História de Serena. Porto:ASA

NÃO VOU PARA A ESCOLA


Não vou para a escola. Porque tenho sono. Tenho frio. Ninguém gosta de mim na escola.
Não vou para a escola. Porque há lá duas crianças. São maiores do que eu. São mais fortes do que eu. Quando passo por elas, esticam os braços e tapam-me a passagem. Tenho medo.
Tenho medo. Não vou para a escola. Na escola o tempo pára simplesmente. Fica tudo do lado de fora. Do lado de fora da porta da escola.
O meu quarto em casa, por exemplo. Também a minha mãe, o meu pai, os meus brinquedos e os pássaros na varanda. Quando estou na escola e penso neles, tenho vontade de chorar. Olho pela janela. Lá fora, há nuvens no céu.
Não vou para a escola. Porque não gosto de nada lá.
No outro dia desenhei uma árvore. A professora disse: «É mesmo uma árvore; bom trabalho.» Desenhei outra. Esta também não tinha folhas.
Depois uma daquelas crianças aproximou-se e troçou de mim.
Não vou para a escola. Quando vou para a cama à noite e penso em ir para a escola no dia seguinte, sinto-me pessimamente. Digo: «Não vou para a escola.» E eles dizem: «Como podes dizer isso? Todas as pessoas vão para a escola.»
Todas as pessoas? Então deixem-nas ir. O que vai acontecer se eu ficar em casa? Ontem eu fui, não fui? E que tal se eu não for amanhã, e depois for no dia a seguir?
Quem me dera estar em minha casa, na minha cama. Ou no meu quarto. Quem me dera estar em qualquer lado que não fosse aquela escola.
Não vou para a escola, estou doente. Não vêem? Mal alguém diz escola, sinto-me doente, fico com dor de estômago. Nem consigo beber o leite.
………………………………….................................................................................................................................

O excerto transcrito provém de um texto que pertence a uma série relativa à filhita (Ruya) do escritor, Orhan Pamuk, prémio Nobel da literatura 2006, o recentemente publicado pela Presença Outras Cores – Ensaios sobre a Vida, a Arte, os Livros e as Cidades, título irresistível que (não) diz tudo…

(pela mão de AVB)


Uma visão disfórica, não heróica da escola. Numa escolarização forçada e num mundo de rituais estandardizados, nem sempre se cumprem os ideais de liberdade, emancipação, proximidade, equidade.

Licença Sabática - DGRHE informa CE

De acordo com o estabelecido no art.º 9º, n.º 1, da Portaria n.º 350/2008, de 05.05, cumpre informar V. Ex.ª que vai ter início o processo de candidatura a licença sabática, pelo que irá ser disponibilizado na página da DGRHE, entre os dias 30 de Março e 9 de Abril, o formulário electrónico de candidatura a licença sabática para o ano escolar de 2009/2010, a preencher pelos candidatos.
Sobre o processo vai ser disponibilizada, de imediato, na página da DGRHE a Nota Informativa nº 1 /LS/2009, em:
http://www.dgrhe.min-edu.pt/Portal/WebForms/Docentes/CondicoesTrabalho.aspx?condicoes=sabatica

Humanidade

Escrevi, há dias, um apelo. Recebo notícias felizes. Neste tempo de Páscoa, há anúncios de humanidade que nos tocam. Quem quiser aderir a este círculo de afectos, aqui fica o contacto: j.ming.abreu@gmail.com

Bem hajam.

Domingo, Março 29, 2009

Celebração do sabor

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Princípios fundacionais da Escola que Aprende


No entanto, se dizemos que a escola também tem que aprender, quais os motivos que urgem à aprendizagem? De forma sucinta passarei a enunciar seis princípios dos quais, na minha opinião, emana essa necessidade e obrigação.

Princípio da racionalidade

Dividirei este princípio em dois blocos argumentativos. Um deles refere-se à lógica que preside à análise da prática. Outro é a necessidade de actualização face aos conhecimentos específicos da profissão.
Efectivamente, a lógica exige que se conheça o resultado do esforço empregue na obtenção das pretensões abordadas. É absurdo que se proponha atingir determinadas metas sem nunca saber se tiveram ou não êxito (ou se, nessa pretensão, atingiu-se um resultado totalmente oposto ao pretendido). Não faz muito sentido trabalhar às cegas, sem objectivos claros e sem reflectir sobre os resultados.
As escolas dão, por vezes, uma imagem pouco sensata: realizam um trabalho sem nunca se interrogar acerca da sua natureza, repercussões ou efeitos secundários. As escolas vivem à margem do seu êxito e, nalguns casos, nem sequer necessitam de definir o seu êxito.
A aprendizagem deve ser constante e afectar todas as vertentes de um dado projecto: planificação, execução, avaliação e meta-avaliação. A mecanização dos processos só conduz à esterilidade e ao infortúnio. Num mundo em mudança, numa actividade tão complexa e multifacetada como a educação, é importante lutar contra o improviso e contra o azar.
O segundo bloco de argumentos tem como vector fundamental a óbvia necessidade de estar actualizado acerca do desenvolvimento dos conhecimentos científicos, pedagógicos, organizacionais, psicológicos e jurídicos que o trabalho numa instituição tão complexa e importante como a escola acarreta.
É uma verdade insofismável afirmar que nada está formado de uma vez para sempre. Nenhum ofício (e muito menos este que é exercido numa instituição) direccionado para as pessoas e com uma natureza tão complexa e problemática, pode ser executado adequadamente sem uma actualização constante.
A racionalidade assenta na lógica de determinadas pretensões que têm de ser partilhadas e constantemente revistas, nas exigências dos meios e estratégias necessários para a sua prossecução e na interrogação permanente que permite comprovar resultados e respectivos efeitos secundários.
A racionalidade decorre de uma reflexão profunda sobre a finalidade e o significado da escola nesta sociedade. O que é que se pretende? Nesse debate devem ser escutadas as opiniões mais diversas, não apenas dos profissionais que trabalham na escola, mas também dos pais e mães, dos alunos e dos membros da comunidade social.
A organização da escola é o alicerce em torno do qual se desenvolve o projecto e, ao mesmo tempo, uma parte desse mesmo projecto. Não é racional esperar que se formem pessoas livres a partir de estruturas autoritárias. Não é lógico esperar que uma estrutura asfixiante eduque pessoas criativas.
O clima da instituição é um meio de cultura da reflexão onde os profissionais realizam a reflexão. Um clima positivo torna aliciantes os encontros frutuosos. O diálogo sincero e aberto acaba por se converter numa plataforma de aprendizagens.

Quando... o clima da escola é decepcionante, os educadores ficam logicamente deprimidos. A imaginação, o altruísmo, a criatividade e a capacidade intelectual depressa esmorecem face ao ramerrão diário dos alunos indisciplinados, do currículo desajustado, do ambiente impessoal ou dos colegas igualmente desmotivados.
(COSTA, 1991, citado por PERKINS, 95, pág. 219.)

O clima depende fundamentalmente das atitudes dos membros da comunidade educativa, mas também da forma como essa comunidade é gerida pelos administradores educativos e da respectiva avaliação feita pela sociedade.

Princípio da responsabilidade

A actividade educativa não é neutra, nem asséptica. Está carregada de valores. Trata-se de uma actividade comprometida não somente com as pessoas, mas sim com a sociedade em geral. Diferentes acções geram resultados distintos. Cada enfoque, cada forma de agir e cada modo de relacionamento têm repercussões bastante importantes.
Há alunos que abandonam a escola com a sua auto-estima destroçada, com estratégias ineficazes para enfrentar a vida, sem recursos para prosseguir a aprendizagem ou, o que é ainda mais grave, com o desejo de aprender totalmente destruído.
Esta abordagem não afecta somente o modo de agir de uma ou outra escola, mas sim o modo de organização do próprio sistema educativo. Há estruturas envenenadas pelas abordagens ou funcionamentos discriminatórios que prejudicam os mais desfavorecidos. Não é inocente a forma de organizar as escolas.
O título da recente obra da autoria de ROSS EPP e WATKINSON (1999) A violência no sistema educativo. Acerca dos danos que as escolas causam às crianças coincide com algumas das minhas perspectivas, levando-me a sublinhar este princípio conducente à aprendizagem. Há que reflectir sobre os actos praticados porque as consequências podem ser simultaneamente admiráveis ou nefastas.

Princípio do profissionalismo

Pode-se aprender a ser um melhor profissional de muitas maneiras, mas uma das mais eficazes é, sem dúvida, a aprendizagem resultante da reflexão rigorosa, partilhada e constante sobre a prática profissional.
Como sustenta STEWART (1997) no título tese da sua obra, a nova riqueza das organizações é o seu capital intelectual. Ou seja, a capacidade dos profissionais agirem e interagirem de forma inteligente e colegiada. O talento dos professores, o seu compromisso intelectual e moral com a acção, as relações interpessoais enriquecedoras, constituem o “ouro oculto” (segundo a expressão de STEWART) da organização.
A actividade desenvolvida nas escolas não pode ser interrompida, porque são muitos os elementos que a integram que estão em permanente mudança: a sociedade a que serve está em mutação, os alunos que nela se matriculam estão em mudança, bem como os conteúdos científicos trabalhados e o saber pedagógico que a sustenta...
É fácil e pertinente estabelecer a comparação com as instituições de saúde. Jamais seria possível intervir de forma adequada com instrumentos desfasados, métodos de diagnóstico e terapia antiquados ou perspectivas já ultrapassadas... Por que é que o mesmo não se passa nas escolas? Em parte porque os efeitos catastróficos da sua deficiente acção não são tão visíveis (ou não são considerados tão importantes). E porque muitos dos fracassos são atribuídos aos alunos.
Uma abordagem entregue a rotinas relaciona-se com questões técnicas e científicas, mas também com as dimensões éticas da prática.


Princípio da perfeição

Como podem melhorar as escolas? Como se podem aperfeiçoar? Muitas são as vias, certamente. Umas mais eficazes do que outras. Umas mais positivas do que outras.
Foram muitas as vezes em que pretendeu mudar a escola através de prescrições externas. Os especialistas analisam a situação e os políticos fazem leis conducentes à mudança. O epicentro deste processo de mudança está fora da escola.
Outras vezes deixa-se à iniciativa de cada professor a tarefa do seu aperfeiçoamento. Este elege as áreas de formação em função das suas necessidades e da oferta disponível. A origem da decisão está em cada professor.
Neste ponto defendo um modo de desenvolvimento profissional e de mudança institucional que é a aprendizagem partilhada. O epicentro deste processo de mudança está na própria escola e nele estão envolvidos todos os professores e encarregados de educação.
Não me refiro unicamente ao aperfeiçoamento dos métodos, mas sim (e acima de tudo) o aprofundamento das bases sobre as quais se manifesta, simplesmente porque não há nada mais absurdo do que “lançar-se de cabeça” na direcção errada.

Assim, se num dado momento, quiséssemos construir um currículo para a nossa escola, a primeira questão não seria como o fazer, mas sim qual a ideia de escola e educação em que baseámos essa decisão, por que motivo nos envolvemos nessa tarefa e para quê ou ao serviço de quem a fazemos.
(ESCUDERO MUÑOZ, 1994, pág. 180.)

Melhorar ou aperfeiçoar o funcionamento da escola conduz à discussão sobre as bases que a sustentam. A participação é a base da inovação eficaz.

Participar num estabelecimento escolar é a acção de intervir nos processos de planificação, execução e avaliação das tarefas que nele se realizam.
(ANTÚNEZ e GAIRÍN, 1996, pág. 65.)

A participação é um direito e um dever democrático da comunidade educativa e afecta não apenas o desenvolvimento da actividade, mas também a sua planificação e a sua avaliação. Este processo constitui a causa e o efeito da aprendizagem. Esse processo de participação constitui e, ao mesmo tempo, conduz ao melhoramento da instituição educativa. Constitui porque se trata efectivamente de um processo que ensina a fazer. E conduz porque o resultado da aprendizagem partilhada é a tomada de decisões racionais conducentes ao desenvolvimento.

Princípio da exemplaridade

As escolas têm de encarnar verdadeiramente aquilo que aconselham. O convite que é constantemente feitos aos alunos para que estudem e aprendam tem de ser assumido com extrema clareza e persistência.
A atitude autocrítica que a torna consciente dos seus erros e limitações é um óptimo exemplo daquilo que os alunos praticam durante o seu processo de aprendizagem.
A abertura à crítica, que permite conhecer com precisão e analisar com mais rigor os acontecimentos, é um excelente modo de fazer ver a importância da abertura mental e da humildade que conduz à aprendizagem.
Converter os erros em motivos de aprendizagem e de melhoramento (ASTOLFI, 1999) não só é uma estratégia didáctica utilizada no ensino, como também um recurso útil para a aprendizagem dos professores. A fertilidade do erro é uma realidade para as instituições que trabalham de forma inteligente.
A escola surge, assim, não como fiel depositária de respostas, mas como impulsionadora de perguntas, não como a cúpula do saber, mas antes como a perscrutadora da verdade, não como a detentora do conhecimento hegemónico, mas sim como a indagadora do saber desconhecido. A escola converte-se, pois, no caminho, não no fim.
Para que a escola possa dedicar-se à aprendizagem e não apenas ao ensino, necessita de incorporar as dinâmicas necessárias nas suas estruturas: equipas de profissionais, horários específicos, meios materiais e motivos pessoais e institucionais para a sua aplicação prática. É contraproducente pedir que se realize uma tarefa, quando é impossível executá-la. E muito mais ainda, exigir.
Este enfoque ajuda-nos a melhorar a instituição, a aprender os múltiplos aspectos da profissão e – também – a que nos sintamos mais apoiados e menos expostos às críticas daqueles que preferem continuar agarrados às velhas rotinas.
Quando falo de uma comunidade crítica de aprendizagem defendo o protagonismo de todos os seus membros. Ou seja, estes não podem ser meros executantes de abordagens que outros terão feito, porventura com a melhor das boas vontades, para si próprios. E também não podem ser actores de um guião que outros escreveram. Devem ser os autores e os actores de uma obra que eles mesmos escreveram e que decidiram representar.
Na medida em que o protagonismo está na escola, os papéis hierárquicos têm necessariamente de mudar. A autoridade converte-se numa força impulsionadora do crescimento. Em toda a escala hierárquica inverte-se o papel decisório e controlador das altas hierarquias que se convertem em instâncias que facilitam e promovem o compromisso, a decisão e a participação de todos no desenvolvimento de um projecto motivador.
A necessidade de aprendizagem está ligada à urgência da mudança. As escolas têm uma comprovada tendência para a inércia.

Embora, na sociedade, a mudança se tenha convertido em algo corrente, as escolas continuam em grande parte como sempre... Apesar dos enormes esforços realizados, a instituição educativa demonstrou, em todos os seus níveis, uma notável incapacidade para accionar e manter formas de ensino mais eficazes, bem como criar ambientes de aprendizagem produtivos e estimulantes para as escolas.

(WIDDEN, 1987, pág. 1)

A aprendizagem não tem, por conseguinte, o finalidade única de armazenar conhecimentos e gerar satisfação. A aprendizagem deve estar ligada ao melhoramento das pessoas e das instituições. Quando falo de melhoramento, refiro-me a questões alicerçadas no território da ética: evitar a injustiça, reduzir a pobreza, melhorar o respeito, evitar a discriminação, aumentar a solidariedade...

Princípio da felicidade

Hoje fala-se com insistência na desmotivação da classe docente. É importante colocar o dedo nas feridas e descrevê-las detalhadamente. Só que é ainda mais importante saber como se produzem e como se podem curar.
Acredito que a prática rotineira, individualista e mecanizada dos docentes conduz ao desalento e à frustração. Porém, existe uma outra espécie de prática frequente numa comunidade de ensino e aprendizagem que assume a tarefa como um desafio, que planifica com base num debate franco e exigente, que actua de forma concertada e que reflecte sobre aquilo que faz com coerência e paixão.
Deste princípio resulta uma concepção da actividade como uma aprendizagem partilhada realizada por toda a comunidade. Quando falo desta dimensão concertada da prática, refiro-me não só às componentes intelectuais, como também às emocionais e atitudinais.
Preocupa-me o envelhecimento dos profissionais na actividade docente. Se a experiência é convertida em sabedoria, os anos de serviço podem constituir uma fonte de satisfação. Não é gratificante identificar experiência com decepção, desmotivação e tédio.
Num livro com um título tão belo quanto surpreendente (A alegria de ensinar), ALVES, Rubem (1996) refere que “o professor nasce da exuberância da felicidade”. Neste tempo em que tanto se fala dos problemas da classe docente, é necessário levantar a voz para reivindicar a dimensão fascinante do ensino.

Ensinar é uma forma de ganhar a vida mas, acima de tudo, é uma forma de ganhar a vida dos outros, de estimular o amor por aquilo que aprendem. A função de um professor dotado e entusiasta é uma das profissões mais belas do mundo.
(LLEDÓ, 2000, pág. 45.)


Gosto mais de falar de educação do que de ensino. Em primeiro lugar, porque o termo educar é mais completo do que instruir, uma vez que o primeiro inclui as dimensões intelectuais do indivíduo. Mas também porque é mais preciso, corresponde melhor à realidade. Qualquer professor, independentemente da disciplina que lecciona, dá várias aulas ao mesmo tempo: o respeito, a atenção pela diversidade, o amor pelo conhecimento, a proximidade emocional, a ética, a linguagem...
Se pretendemos fazer da prática um exercício de procura da felicidade, é necessário abri-la à aprendizagem e convertê-la numa prática apaixonada pelo saber e pela compreensão da realidade.


Miguel Santos Guerra. A Escola que aprende. Porto: ASA

Do Amor


É isto. Ouve com atenção. Meditei sobre o amor, e esclareci tudo. Vi claramente o que está errado. Os homens apaixonam-se pela primeira vez. E por quem se apaixonam eles?

A boca macia do garoto estava entreaberta; e o rapaz não respondeu.
- Por uma mulher - disse o velho.
-Sem ciência, sem nada que os sustente, entregam-se à experiência mais perigosa e sagrada desta terra de Deus. Apaixonam-se por uma mulher. Não é isto verdade, meu filho?
- É...
- respondeu murmuradamente o rapaz.
- Começam pelo lado errado do amor. Começam pelo mais alto. É para admirar a tão grande miséria resultante? Sabes como os homens deveriam amar?

O velho estendeu a mão e agarrou o rapaz pela gola da blusa de couro. Sacudiu-o suavemente, e os olhos verdes olhavam sem pestanejar, graves.
- Meu filho, sabes como o amor devia começar?
O rapaz sentia-se pequeno no banco, todo ouvidos, imóvel. E, devagar, abanou a cabeça. O velho chegou-se mais e segredou:

- Uma árvore. Um rochedo. Uma nuvem.

Carson McCullers (USA.1917-1967)(-excerto)
(Via Amélia Pais)
(foto jma)

Teoria Crítica e Compaixão

Tal como relata Habermas, pouco antes do octogésimo aniversário de Marcuse, os dois interrogavam-se sobre como explicar a base normativa da teoria crítica.

Marcuse só deu a resposta dois dias antes da sua morte:
“Vês? – disse a Habermas – agora sei em que é que se fundamentam os nossos juízos mais elementares: na compaixão, no nosso sentimento pela dor dos outros”.

Para os teóricos da escola de Frankfurt, a piedade e a compaixão constituíram a arma da crítica. As profundas marcas que neles tinham deixado os mártires dos campos de concentração tornavam-nos especialmente sensíveis à injustiça e à dor.

“O pensamento teórico, dizia Horkheimer, não pode constituir um travão à acção, enquanto os homens continuarem a ter consciência de que algo é verdadeiro e bom e enquanto continuarem a compreender e a sentir a injustiça como dolorosa”.

A sensibilidade para os problemas das pessoas, para com a dor e a injustiça distingue e caracteriza a razão integramente humana. Aquela que fornece argumentos numa direcção marcada pela piedade.A escola e a acção educativa que nela se desenvolve devem ser inspiradas e orientadas por valores que se integrem no discurso de uma humanidade que procura a igualdade, a justiça e a paz de todos os seres humanos. Seria educativa a acção de uma escola que colocasse os seus esforços ao serviço dos poderosos e dos opressores?

Miguel Santos Guerra. Entre Bastidores. Obra citada

Sábado, Março 28, 2009

ISTO

Chega-me este relato de uma acção de in/formação e a evidência das evidências.

A certa altura, ao meu lado, agitavam-se umas meninas que não estavam a gostar. Perguntei à mais chegada:
- A colega o que esperava desta acção?
- Não esperava nada!
- Não?
- Não, porque descarreguei os programas da net e também sei ler.
- Ah! Mas sempre veio...
- Pois vim, por causa do papel.
- Do papel?
- Sim, isto - e mostra-me a declaração de presença.
- E isso é assim tão importante?
- É, porque eu defini objectivos e tenho de provar e mostrar...
E, como ela, o friso todo!

A sempre presente avaliação


O início da crónica de hoje do Miguel Santos Guerra:

La evaluación es un fenómeno de extraordinaria complejidad que permite poner sobre el tapete todas nuestras concepciones, principios y actitudes sobre la enseñanza y el aprendizaje. Dime cómo evalúas y te diré qué tipo de profesional y de persona eres. Pues bien, entramos en fase de evaluación. Todo cobra un especial sentido porque vamos a encontrarnos con los resultados.Siempre me ha llamado la atención que la evaluación se haya convertido en el fin y no en un medio de comprobar y de mejorar el aprendizaje. Pareciera que se estudia para ser evaluado y no que se evalúa para saber si se ha aprendido y se puede aprender más y mejor.


Me sorprende aún más que la evaluación se convierta en un ejercicio de poder, de modo que algunos no se podrían imaginar lo que sería la escuela si esa forma de entender la evaluación (como una finalidad, como una calificación) desapareciese. Es decir, que se ha hecho más importante aprobar que aprender. Me llama la atención aún más que haya profesores (ya sé que son excepciones) que disfrutan cuando suspenden mucho y piensan que de esa forma ellos y sus asignaturas se hacen más importantes.

(...)

La escuela es el reino de lo cognitivo pero debería ser también el reino de lo afectivo. Hay muchos sentimientos en juego amarrados a la evaluación. Sentimientos de profesores y sentimientos de alumnos. El peligro consiste en que lo que se ha aprendido o se ha dejado de aprender venga a ser secundario. Que lo verdaderamente importante sea que el poder del evaluador, a través de la evaluación, se mantenga a flote. ¿Qué sucedería en algunas clases si desapareciese el poder de evaluar? ¿Qué sucedería si los alumnos supiesen que ellos mismos podrían evaluarse? Es decir, si lo único importante fuese lo que se aprende porque no importase nada absolutamente la evaluación como acreditación o calificación.La constante referencia a la evaluación durante el proceso de enseñanza aprendizaje, la forma de hacer preguntas, la parafernalia que rodea los exámenes, la solemnidad de las correcciones, la importancia de las calificaciones invierten la jerarquía de estos dos fenómenos: aprobar y aprender.Hay profesores que tienen amenazados a sus alumnos con el arma del examen. A través de ella imponen el orden. El respeto y la sumisión. Los alumnos entran en la dinámica y desempeñan su papel. Se produce entonces un forcejeo para ver quién puede a quién, quién engaña a quién. Los alumnos descubren pronto que se puede engañar y que quien no lo hace es un pobre estúpido. Aprenden a copiar para garantizar el éxito. Una amiga me cuenta que su sobrina fue sorprendida por su madre con la palma de la mano izquierda escrita con esmero con la información que iba a ser objeto de examen.


Miguel Santos Guerra

Triângulos para a Acção Directiva

Vou utilizar a metáfora do triângulo de modo a que vejam de forma clara os principais eixos da minha posição no que respeita ao tema.

a) Primeiro triângulo. As condições para a melhoria: QUERER. SABER. PODER.

A primeira exigência é que realmente queiramos exercer a função directiva para realizar uma função pedagógica e não meramente de protocolo ou de gestão. Os motivos espúrios distorcem o exercício profissional. Porém, se o que menos importa é a acção educativa, se a condição de Director se deve unicamente ao desejo de aparentar, à vontade de controlar, ao servilismo face à Administração... pouco poderá ser obtido desde uma perspectiva autenticamente educativa.
Ser Director à força (seja através de nomeação, de uma aceitação renitente, de uma eleição “democrática”) dificulta o bom exercício da direcção. Não se trata tanto de fazer o que gostamos, mas sim de gostar do que fazemos. Empenhar-nos de alma e coração em executar bem a nossa função, em desempenhar tarefas de coordenação através duma vertente verdadeiramente democrática. A chave do sucesso consiste em ajudar a equipa a elaborar, planificar, desenvolver e avaliar um projecto educativo rico e coerente. Só através desta exigência poderemos viver de forma positiva esse papel e só através dessa atitude poderemos ajudar os outros.
Por isso, este vértice do triângulo é uma das pedras angulares que sustenta o edifício: Quais as vontades que moveram alguém a querer ser Director?
A segunda exigência é o saber. Pensar que não são precisos conhecimentos específicos para o exercício da acção directiva é um erro grave. Não me refiro ao conhecimento da legislação, que parece ser o único que é exigido. Refiro-me a conhecimentos sobre a dinâmica de grupos, sobre a organização escolar, sobre a psicologia da aprendizagem, sobre sociologia da educação... Não me refiro também a uns quantos conhecimentos inertes aprendidos em livros e comprovados através de exames, mas sim a um saber adquirido na reflexão rigorosa sobre a prática, integrado na acção profissional. Esse conhecimento servirá para iluminar a acção e para conduzir a prática.
A terceira exigência é o poder. Querer e poder não são os únicos requisitos, ainda que sejam imprescindíveis. Para que a acção directiva possa resultar eficaz, criativa e estimulante é indispensável dispor de determinados contextos organizativos, de uma equipa unida, de meios suficientes e de autonomia.
A dimensão das escolas, a sua heteronomia vincada, a falta de recursos e de tempo, a má preparação dos profissionais, as péssimas condições em que é exercida a docência numa sociedade fomentada por contravalores, dificulta a acção directiva eficiente.

B. Segundo triângulo. O conteúdo da melhoria: DISCURSO. ATITUDES. PRÁTICAS.

Para melhorar a direcção não basta modificar apenas o discurso sobre si própria, a denominação das competências ou a linguagem sobre as tarefas. Existe o risco de considerar que a realidade muda porque também muda a nossa forma de a pensarmos e denominarmos. Não digo que não seja necessário elaborar um discurso novo, uma filosofia distinta, uma linguagem diferente. Mas apenas isso não chega.
É preciso mudar também as atitudes de quem desempenha o cargo e de quem recebe o seu influxo. A cultura escolar não tem sido uma cultura de participação e de cooperação. O Director pode ter herdado determinadas formas, determinados estereótipos enraizados numa cultura hierárquica. Por conseguinte, os membros da comunidade escolar esperam dele acções e atitudes que não são as mais desejáveis. O Director não é aquele que pensa por todos e para todos, que responde por tudo, que tem de motivar e estimular os profissionais, que controla e exige... O Director coordena uma equipa de profissionais. Não é a pessoa que manda, apenas aquele que ajuda e torna possível.
Mudar o discurso e as atitudes não é suficiente. É necessário modificar a prática, transformar o que é feito ou fazer de outra forma. Perder tempo à espera que as coisas se alterem, dar desculpas por dificuldades inexistentes e omitir por considerar as pessoas como não estando preparadas não passam de impedimentos para a inovação e racionalizações da rotina.

C. Terceiro triângulo. As estratégias da melhoria: INVESTIGAÇÃO. APERFEIÇOAMENTO. INOVAÇÃO.

O aperfeiçoamento dos Directores não é conseguido, essencialmente, através de prescrições, teorias, cursos ou regras que lhes são transmitidas por pessoas que estão situadas fora de contexto. E se resultasse, deveríamos questionar essa estratégia como a melhor já que a iniciativa estaria sempre situada além fronteiras. Até que os agentes externos não decidissem intervir teríamos de esperar.
Do meu ponto de vista, a sequência da mudança está assente neste terceiro triângulo.
A investigação sobre a prática profissional, atenta contra os valores que desenvolve, realizada pelos protagonistas dessa acção que pretendemos compreender e melhorar. A investigação nasce da perplexidade ou da incerteza dos profissionais.
Como realizamos a nossa prática?
Pode transformar-se numa prática melhor?
Como a entendem os destinatários?
Que podemos fazer para a melhorar?
A partir das atitudes dogmáticas, das rotinas, da exigência exclusiva das mudanças que os outros têm que realizar, não é possível conseguir obter mudanças eficazes. O motor da transformação é a incerteza que conduz à reflexão rigorosa e às decisões subsequentes.
Repare-se que falamos de uma investigação realizada pelos protagonistas sobre a sua própria prática. Uma reflexão que não segue o procedimento habitual, já que esta é informal, pouco rigorosa, precipitada, pouco contrastada. Uma reflexão que não consiste na solução de problemas, porque além da eliminação de conflitos implica que estes sejam compreendidos. Trata-se de uma reflexão que não se baseia no método tradicionalmente considerado científico e que não utiliza desenhos experimentais, nem controlo de variáveis através de amostras representativas.
A preocupação temática pode ser diversa, porque diversos são os campos de intervenção e os aspectos da actuação da equipa directiva:
· Níveis de coordenação que propiciam;
· Grau de confiança que geram na comunidade;
· Racionalidade nas suas pretensões;
· Coerência na sua actuação;
· Impulso da autonomia do corpo docente;
· Incentivo aos processos de inovação;
· Preocupação pelos valores;
· Discriminação sexual;
· Sentido da norma;
· Reflexão partilhada que provocam;
· Burocratização do trabalho;
· Efeitos secundários que são suscitados;
· Clima que é gerado pela direcção;
· Cuidado dedicado aos fracos e desfavorecidos;
· Comunicação com os pais;
· Escuta de todos os membros da comunidade;
· Defesa das atitudes justas;
· Génese dos conflitos;
· Acessibilidade para todos os membros da comunidade;
· Abertura na captação de novas ideias;
· Circulação de informações para a comunidade;
· Sentido do humor;
· Transparência da gestão;
· Presença/ausência de colegas
· Presença/ausência de boatos;
· Centralização versus autonomia do corpo docente;
· Atitude para a convivência e para a disciplina;
· Protagonismo e democracia;
· Etc.

Essa investigação produz o aperfeiçoamento profissional porque leva à compreensão dos fenómenos. Através dessa indagação os responsáveis por cargos directivos entendem o que se passa com a sua actividade, aprofundam o sentido dos significados, descobrem os erros, compreendem os problemas e vislumbram soluções.
Essa investigação é educativa, já que se preocupa pelo valor educativo da acção e já que procura ser, ela própria, um processo educativo. A finalidade fundamental não é produzir conhecimento, mas sim transformar a acção.

Miguel Santos Guerra. Entre Bastidores - O lado oculto da organização escolar. Obra citada

Quinta-feira, Março 26, 2009

Quarta-feira, Março 25, 2009

Entre Bastidores

A Escola é um microcosmos no qual se tece uma rede, visível umas vezes, invisível outras, de relações interpessoais que configura o clima da instituição. Não é fácil descrever como vai ocorrendo esse emaranhado de comunicações, já que estas têm uma natureza diversa, uma finalidade e intensidade bastante diferentes, direcções múltiplas e uma constante variabilidade que decorre da dinâmica interna e dos condicionalismos externos.

Para captar essa espessa rede de relações é preciso ter em conta que a escola é uma instituição que se move entre duas realidades que configuram a sua cultura tão peculiar:

a. Todas as escolas são iguais: Quer isto dizer que todas participam de determinados pontos comuns que lhes conferem uma fisionomia particular. As escolas são diferentes das empresas, associações desportivas ou culturais, igrejas ou seitas religiosas... Ou seja, toda a escola é uma instituição heterónoma, com recrutamento forçado, de articulação fraca, com tecnologia problemática, de fins ambíguos, com forte pressão social... Quer queiram, quer não, as escolas participam destas condições, destas características que as definem institucionalmente e as determinam socialmente.

b. Cada escola é única: Da mesma forma, há que sublinhar que cada escola é absolutamente irrepetível. Cada uma aplica de uma forma peculiar as mesmas leis, suporta as pressões de forma diferente, entende e pratica a tecnologia, recebe os alunos com ânimos diferentes, coordena o trabalho com intensidade variável, desenvolve os fins ambíguos em determinados níveis de concretização particular... Também é verdade que cada escola tem um tamanho diferente, emprazamentos únicos, profissionais mais ou menos interessados na sua função, uma história remota e próxima que permite entender o que nela ocorre no momento presente.
Desta forma lapidar começa Charles Handy o seu trabalho sobre as forças culturais nas escolas:

“Cada organização é diferente. Cada escola é diferente de outra escola, e as escolas, como grupos, são diferentes de outros tipos de organizações” (Handy, 1988).

Hipertrofiar uma das duas dimensões pode distorcer a compreensão, exclusivizar os modos de aproximação e de investigação e condicionar os processos de planificação, intervenção, avaliação e mudança. Pensar que todas as escolas são iguais, faz com que se unifique a forma de as entender e de as organizar. Pensar que toda a escola é absolutamente irrepetível, impede que se reconheça a incidência dos factores que a identificam como instituição social.
Muitas das relações que ocorrem na escola circunscrevem-se ao processo de ensino/aprendizagem, mas muitas outras têm um conteúdo diferente e aglutinam-se em áreas de tipo emocional ou pessoal que não fazem referência ao conhecimento ou à tarefa. É difícil, a priori, dizer quais são as que têm importância e repercussão maior para cada pessoa, em cada situação.

“As pessoas comunicam entre si nas organizações por uma ampla diversidade de razões. Algumas vezes procuramos informação ou assistência técnica. Outras queremos saber se algumas pessoas do nosso grupo de trabalho têm a mesma opinião que a nossa. Outras vezes apenas queremos partilhar a nossa experiência com os outros” (Mitchell e Larson, 1987).

A importância da comunicação é decisiva no âmbito da educação. Não diria que para além da aprendizagem há comunicação na escola. Diria que a aprendizagem significativa da escola ocorre na comunicação, ou é a própria comunicação. Não há, a meu ver, outro conceito mais identificável com educação do que o de comunicação.
A rede de relações que se estabelece na Escola não se tece apenas na sala de aula, ainda que este seja um dos principais cenários da comunicação. As entradas e as saídas, os corredores, os locais de recreio, as oficinas ou laboratórios, etc., são também teares nos quais incessantemente se confecciona este tecido composto de inúmeros fios, densidades e cores.
Essa rede de relações diversas, dinâmicas, de diferente significado e intensidade, pode ser estudada desde a perspectiva tridimensional que passarei a propor, no bom entendimento de que todo o parcelamento e fragmentação não pretende mais do que ajudar na análise de uma realidade que é um todo e que não pode ser descomposta em peças sem correr o risco de perder o seu genuíno significado.
No âmbito da organização escolar, os indivíduos relacionam-se entre si. Nem todas as relações são sãs na escola, nem todas são educativas. Algumas têm um carácter patológico (Kets e Miller, 1993).

Miguel Santos Guerra. Entre Bastidores - O lado oculto da organização escolar. Obra citada

Disposições Mais que Discutíveis, Querelas (que deveriam ser) Inúteis

«As regras que a lei prevê são que sem avaliação não há progressão e o tempo não releva para efeitos de concurso. E não é possível ver avaliação sem fixação de objectivos globais como é claríssimo para a auto-avaliação e para a avaliação funcional», sublinhou o Secretário de Estado Adjunto e da Educação.

O artigo 44º do ECD que define o processo de avaliação do desempenho é claro: as fases do processo de avaliação do desempenho são 8, sendo seis obrigatórias e duas facultativas: i) ficha de auto-avaliação; ii) ficha de avaliação do coordenador do departamento; iii) ficha de avaliação do director; iv) conferência e validação de dados; v) entrevista dos avaliadores com o avaliado; vi) reunião dos avaliadores para decisão; vii) reclamação (eventual); viii) recurso (eventual).

É certo que a lei prevê que sem avaliação não há progressão e que o tempo não releva para efeitos de concurso. Mas já é insustentável no plano científico e técnico afirmar que "não é possível ver (haver?) avaliação sem fixação de objectivos". É claríssimo que pode haver avaliação sem objectivos previamente fixados. Há até correntes e paradigmas avaliativas que sustentam (com bons argumentos) que não deve haver objectivos previamente fixados.

E mesmo no plano jurídico há dúvidas legítimas. É certo que o nº 1 do artº 9 do DR 2/2008 refere que "Os objectivos individuais são fixados, por acordo entre o avaliado e os avaliadores, através da apresentação de uma proposta do avaliado no início do período em avaliação, redigida de forma clara e rigorosa, de modo a aferir o contributo do docente para a concretização dos objectivos constantes da alínea a) do artigo anterior." Mas também refere que não havendo acordo, prevalece a posição dos avaliadores. Isto é: os avaliadores podem entender atribuir a cada membro da organização a prossecussão de determinados fins/objectivos da organização. Aliás, no ano passado, para realizar a avaliação dos professores contratados, não foi precisa a definição prévia de objectivos. E não pode haver dois pesos e duas medidas.

Mas a questão jurídica é, meu ver, a questão menor. A questão maior é persistir num braço de ferro, num simulacro de avaliação, num faz de conta que começa a ser absurdo. É por demais evidente que esta avaliação está a gerar muitos mais malefícios à educação portuguesa que benefícios. E se já há feridas insanáveis, não sei onde nos vai conduzir esta obstinação.

Criando Laços



Transcrevo parte de post do meu amigo JMA (José Mingocho Abreu) que trabalha em Moçambique há muitos anos numa acção a múltiplos títulos meritória. E que lança um desafio: quem quererá ser madrinha ou padrindo de uma criança a quem quase tudo falta? Quem quererá alargar o círculo de humanidade, semear sorrisos e esperanças? Quem quererá sentir-se mais próximo do nosso próximo? Aos leitores eventualmente interessados convido a seguir dois caminhos: a) através do meu e-mail enviar nome, morada e contacto para posterior encaminhamento e informação adicional; b) deixar as referências no próprio blogue Africando.
Mas, em Mumemo, são as crianças que me fascinam. As que permanentemente estão a chegar, recolhidas não se sabe bem de onde, sem nome nem idade, com olhos que mendigam mais afectos do que pão e que, a correr e a cantar, me vêm cumprimentar e saudar, tratando-me umas vezes por "papá" outras por "mano Zé". Disse-me, hoje, a Irmã Susana que trouxe mais sete ! Que precisa de padrinhos e de madrinhas para as ajudar. Fiquei de as ir fotografar e, numa postagem, as anunciar como candidatas a afectos, mesmo que longínquos. Hei-de explicar como isso se faz, terei de me informar primeiro.E se este intermitente blog ainda tiver leitores, talvez surjam os desejados padrinhos e madrinhas.

JMA (josé mingocho abreu)

Ver para além dos números

Oferta passou de dez para 60,3 por cento em quatro anos
Ensino profissional está a ser usado para “mascarar insucesso”, denuncia Fenprof


A explosão da oferta de cursos profissionais no ensino secundário público serve, sobretudo, para “mascarar o insucesso e o abandono escolar”, denunciou ontem, em conferência de imprensa, Anabela Sotaia, da Federação nacional de Professores, que chamou a tenção não só para a dimensão deste “boom”, como para o “reduzido tempo” em que foi concretizado: a oferta, nas escolas públicas, “passou de 10 para 60,3 por cento” em apenas quatro anos.

Fonte: Público

Face à notícia 3 notas:
a) convirá não mistificar e enviesar os números. Este aumento astronómico faz-se à custa da extinção administrativa dos Cursos Tecnológicos. Conviria ser transparente e prezar a verdade.
b) dizer que serve para "mascarar o insucesso e o abandono escolar" é uma muito grave afirmação, obviamente redutora e impossível de provar.
c) mas mesmo que o ensino profissional esteja a "servir" para "impedir" o abandono e "produzir" um certo sucesso, a ética educativa obrigar-me-ia a analisar os factores de exclusão do ensino liceal e a não compactuar com o fatalismo do insucesso e do abandono. A luta "política" não deveria servir para usar os alunos como "carne para canhão".

Terça-feira, Março 24, 2009

Princípios Organizadores da AVALIAÇÃO

(...)
Daí que, antes de prosseguir, considere imprescindível definir, brevemente, o tipo de avaliação a que me refiro nestas páginas:
a. Uma avaliação contextualizada. Isto é. que tenha em conta o quadro de refe­rência (tanto diacrónico como sincrónico) em que é realizada a experiência, a dimen­são da organização. a peculiar configuração psicossocial que a define, a idiossincrasia da sua cultura, o meio envolvente, a origem dos seus protagonistas. o momento em que se faz a análise... Não existe, pois, uma única avaliação para todos os casos.
b. Que tem em conta os processos e não apenas os resultados. O que quer dizer que se realiza durante um período relativamente alargado, e não nos momentos considerados terminais. que recorre a instrumentos capazes de levar à compreensão
da dinâmica processual. e que não atende, apenas. a dados relativos ao rendimento escolar dos alunos, para emitir um juízo de valor sobre a actividade desenvolvida, mas que tem em consideração elementos presentes no acontecer da acção, na confi­guração dos diversos cenários, e na natureza e intensidade das relações.
c. Que dá voz aos participantes em condições de liberdade. Isto é, que cria con­dições favoráveis a que cada um emita a sua opinião, de forma a ninguém se sentir ameaçado por falar, ou por ter emitido determinado juízo de opinião. O que implica a garantia do anonimato das pessoas que prestam informações, e a confidencialidade das suas opiniões. A avaliação não é, pois, um juízo dos avaliadores sobre a qualidade da educação na escola, mas uma ocasião para que surjam as opiniões dos que trabalham nela, para que possam ter uma melhor compreensão daquilo que fazem. É imprescindí­vel. pois, captar o significado que a acção tem para os que a protagonizam. Tal facto confere à avaliação um sentido democrático.
d. Que se preocupa com os valores educativos num duplo aspecto. Em pri­meiro lugar, porque centra a sua atenção na captação do valor educativo dos progra­mas, das relações, das actividades, etc. Em segundo lugar, porque a própria avaliação pretende ser educativa na sua forma de se desenvolver. Aprovar ou não aprovar pode ser considerado fundamental. adquirir ou não os conhecimentos pretendidos pode ser um aspecto a avaliar, mas não se pode ignorar tudo aquilo que se relaciona com a dimensão autenticamente educativa: a racionalidade das práticas, a justiça nas rela­ções, a igualdade de direitos. a atenção à diversidade, os princípios inspiradores da aprendizagem, o currículo oculto da escola. a utilização do poder...
e. Que utiliza diversos métodos para reconstruir e analisar a realidade. Um método apenas não permite captar com rigor o que sucede numa instituição tão com­plexa como é a escola. Se apenas nos limitarmos a observar o que sucede, sem dispor das opiniões de quem é observado, se apenas sondarmos as opiniões através dum questionário, sem comprovar, com a observação, a forma como se produzem os fac­tos, se apenas analisarmos os documentos contendo o projecto de intervenção ou os relatórios das actividades, sem descobrirmos presencialmente na escola, se os projec­tos têm ou não consistência real... dificilmente poderemos emitir um juízo fundamen­tado sobre o valor da actividade educativa.
f. Que está comprometida com os valores da sociedade. A avaliação não tem em conta, apenas, os valores da actividade que está a ser desenvolvida na escola mas dá, ainda, voz àqueles que nem sequer podem emitir opinião, por não terem acesso a esses serviços sociais, ou porque acabam por ser prejudicados pela forma como se organiza e desenvolve a actividade educativa num sentido mais amplo e social.
g. Que é uma avaliação em que ninguém tem o critério exclusivo ou privile­giado da interpretação correcta ou válida da realidade. Nenhum grupo social. nenhuma pessoa, possui a faculdade ou atributo de emitir um juízo definitivo sobre a rea­lidade. A participação de avaliadores externos não tem como função disponibilizar aos participantes a avaliação do que eles fazem de bem ou de mal, mas antes oferecer-lhe
dados e critérios, a fim de que possam emitir um juízo mais fundamentado e ade­quado. uma vez que o seu comprometimento e os seus interesses em jogo podem criar dificuldades a uma análise desapaixonada.
h. Que não se deixa arrastar pela mística dos números. É uma avaliação que não lida com valores numéricos, percentagens ou estatísticas, a não ser de uma forma secundária. quando permitem uma melhor compreensão. Não se baseia pois na medição. Os resultados não são apresentados através de dados numéricos.
i. Que utiliza uma linguagem simples. É uma avaliação que recorre à linguagem utilizada pelos protagonistas. quando emitem os seus juízos sobre o valor educativo dos programas desenvolvidos na escola.
j. Que parte da iniciativa da escola. É uma avaliação fruto da iniciativa interna da comunidade educativa, e que tem por finalidade última a compreensão e a melho­ria das práticas educativas. Não se trata. pois, de uma imposição externa, de uma prescrição legal, ou de uma recomendação de agentes externos. mas de uma decisão autónoma, assumida e desenvolvida a partir do interior da própria comunidade edu­cativa.
k. Que pretende modificar a prática. É uma avaliação que tem como finalidade essencial a melhoria da prática educativa através da discussão, da compreensão e da tomada racional de decisões.

SANTOS GUERRA, Miguel Ángel, Como num Espelho – Avaliação qualitativa das escolas (Conferência proferida no Curso de Verão de 2001) in

AZEVEDO, Joaquim (Org), (2002). AVALIAÇÃO DAS ESCOLAS – Consensos e Divergências. Porto: ASA, pp. 11 a 31

Segunda-feira, Março 23, 2009

Défice de Liderança Instrucional


A avaliação externa que a IGE tem vindo a realizar evidencia como um dos factores mais positivos a questão da liderança organizacional. Mas, essa liderança exerce-se mais sobre a organização e o funcionamento global e menos sobre a orientação do trabalho pedagógico (que, como se sabe, é o coração da escola).


Outro aspecto que tem chamado a atenção prende-se com a escassa capacidade das escolas se auto-regularem e promoverem a melhoria consistente de processos e resultados. Este é, pois, outro domínio onde as lideranças têm grande dificuldade de se exercer.

Porquê? Justamente porque é o mais difícil de conseguir. E é o mais difícil dada a idiossincrasia da organização escolar. A sua natureza "balcanizada" e dispersiva; o tempo e os espaços esmigalhados; a diversidade de formações, interesses e ideologias; o modelo curricular muito segmentado; a dificuldade de organizar tempos, espaços e motivos de encontro; as diferentes bases de poder que muitas vezes se entrechocam.

Conteúdo Relevante e as Opções dos Alunos


O cérebro memoriza informação que é significativa e que está ligada a um conhecimento ou experiência anterior. O cérebro quer saber se a nova informação é importante e se vai ser usada no futuro (McGeehan, 1999). Os professores consideram que os alunos de qualquer idade estão mais ansiosos por aprender quando o conteúdo da lição lhes interessa ou é relevante para eles. Por conseguinte, os professores são desafiados a tornarem a nova informação interessante para os alunos e a demonstrarem como essa informação é relevante agora ou será no futuro.

Tornar o Conteúdo Relevante

Alguns conteúdos são tão relevantes que não os conseguiríamos esquecer mesmo que quiséssemos. O nosso nome, por exemplo, é incrivelmente importante para nós – seria difícil de esquecer. Outras informações com consequências de vida ou morte são também muito relevantes. Quando uma criança aprende que o fogo pode ser fatal, não serão necessários, normalmente, avisos para abandonar um edifício em chamas. No entanto, a grande maioria de informação não tem o mesmo grau de relevância ou interesse para os alunos. O objectivo do professor torna-se, então, provar a relevância do conteúdo de uma aula nas mentes de um aluno de um ou dois modos – utilizando estratégias de instrução que tornam as competências tão interessantes que eles não conseguem evitar de as aprender, ou provando o seu uso imediato ou futuro para que sintam a necessidade de aprender esse conhecimento ou competência.

Utilizar Estratégias de Instrução Interessantes

Existem centenas de ideias e estratégias de instrução para tornar a aprendizagem divertida e interessante. Aqui ficam apenas algumas:
1. Ofereça opções aos alunos nas suas aprendizagens.
2. Utilize vários estilos de aprendizagem e de ensino durante a instrução. Numa turma comum, 46 por cento dos alunos são aprendizes visuais, 35 por cento aprendizes cinestésicos e 19 por cento são aprendizes auditivos (Sousa, 1998). Trabalhe numa ou duas modalidades destas em cada aula. Por exemplo, por cada história que ouçam, mostre uma fotografia ou um gráfico. Por cada experiência que façam, peça-lhes que escrevam os resultados. Por cada gráfico que estudem, peça-lhes que discutam as suas hipóteses.
3. Inicialmente, será mais divertida e interessante uma aprendizagem prática e activa. Utilize-a, frequentemente, em todos os temas das áreas académicas.
4. Utilize a aprendizagem pela descoberta. Não dê as respostas aos alunos, mas antes forneça-lhes as questões. Quando os alunos podem descobrir e manipular a informação eles próprios, ganham o domínio da informação.
5. Infunda alguma surpresa, humor ou espontaneidade periodicamente na instrução para explicar algo. Começar a cantar durante a instrução é uma hipótese. Ou apresentar uma unidade de Ciências sobre o tempo entrando na sala com umas galochas calçadas e uma gabardina vestida, por exemplo – de certeza que irá despoletar interesse.
6. Não fale demasiado. Quando o som predominante numa sala de aula é a voz do professor, isso significa muitas vezes que este está a controlar demasiado a aprendizagem. Os alunos não manterão interesse na voz do professor se for apenas esta que ouvem.
7. Planeie propositadamente as suas palavras de orientação. Por exemplo, em vez de dizer à turma “Hoje vão ler as razões da queda do Império Romano”, despolete mais interesse com “Hoje serão detectives em busca de pistas para a razão da queda do Império Romano”.

Demonstrar a Utilização Imediata e Futura do Conteúdo da Lição
Não é incomum os professores ouvirem os alunos perguntarem, numa voz baixinha, “Quando é que alguma veeeeeez vamos precisar disto?” mesmo quando os alunos não esperam, de facto, uma resposta. Em contraste, um dos meus alunos do 3ºano de matemática, o Keegan, fez-me a mesma pergunta várias vezes e esperava ansiosamente por uma resposta genuína. A sua questão forçou-me a provar-lhe a relevância daquela determinada competência da matemática. Keegan abanava a cabeça para indicar que aceitava a minha explicação e a lição continuava. Keegan estimulou-me a começar regularmente por identificar a relevância imediata e as possíveis aplicações futuras das minhas aulas. Algumas vezes dizia simplesmente as suas aplicações. Outras vezes, pedia aos alunos que discutissem para os ajudar a chegar às suas próprias conclusões sobre a relevância da aula e a sua futura aplicação.
Para que os alunos exerçam o seu máximo esforço, precisam de compreender que o trabalho em curso e que a informação que está a ser estudada é significativa. Quanto mais velho é o aluno mais crítico isto se torna. Porque, para o bem ou para o mal, à medida que envelhecemos tornamo-nos naturalmente mais cépticos. Uma criança pequena aprenderá pelo simples facto de aprender. Os alunos do secundário e os adultos não têm nem de longe uma mente tão aberta no que toca a dedicarmos um tempo e esforço preciosos na aprendizagem de nova informação. Eles pensam “Se isto não tem qualquer utilidade, para quê perder o meu tempo?” E para além de obter mais esforço dos alunos através de aulas significativas, o cérebro necessita desta relevância para aprender eficazmente. O cérebro utiliza a relevância para estabelecer a conexão entre cada pedacinho de novo conhecimento e a informação previamente aprendida. Um neurónio solitário (célula nervosa) que guarda um bom pedaço de informação não serve de muito ao cérebro. Só quando esse neurónio se conecta com outro neurónio, e esse a outro e por aí fora, é que as conexões e a aprendizagem ocorrem (Sousa, 1995). Uma metáfora condizente para este processo é a das letras do alfabeto. Uma letra impressa isolada não significa muito. Mas ligada a um som, torna-se um símbolo. E em seguida as conexões com outras letras com som resultam numa palavra inteira que faz sentido. As palavras ligadas a outras palavras formam uma frase de ainda mais significado. Em breve, temos volumes de texto repletos de informação significativa.
A segmentação e a ligação em rede são termos utilizados para descrever a forma como o cérebro agrupa informação similar para a significância e memorização. As pessoas utilizam, regularmente, a segmentação ou o agrupamento para tornarem a informação útil e fácil de recordar (Sousa, 1995). Por exemplo, o seguinte conjunto de números seria difícil de memorizar: 8675309. Contudo, ao agruparmos de forma diferente os algarismos, 867-5309, torna-se mais significativo para nós porque o reconhecemos como um número de telefone e será mais fácil de memorizar.
Ligar em rede é a forma como o cérebro categoriza a informação para uma memorização mais eficaz. Para ilustrar esta categorização, imagine um zoólogo com um gabinete cheio de ficheiros, um para cada animal. Se estivesse disposto de um modo aleatório, poderia levar horas a encontrar o ficheiro “tigre”. Mas, se os ficheiros estiverem organizados por classes ou espécies poderia procurar no ficheiro de “felinos” para encontrar o ficheiro “tigre” rapidamente. Ou se fossem organizados alfabeticamente, encontraria simplesmente o ficheiro pretendido sob a letra “T”. O cérebro funciona de um modo semelhante. Quando um jovem aprende o termo “tigre”, ligará essa nova informação a um conhecimento prévio de animais, ou talvez a animais com pelo ou ainda mais especificamente, de animais semelhantes a gatos. O novo termo “tigre” é conectado no cérebro nos ficheiros “animal” ou “gato”.O cérebro é inundado com informação, portanto tem que fazer uma triagem de significado para em seguida organizar a informação de acordo com isso (Wolfe, 2001). Se a informação não for significativa ou relevante o cérebro não vê razões para a memorizar e apaga-a.
O conhecimento da forma como o cérebro segmenta e categoriza a informação é muito útil para os professores poderem ajudar os alunos a estabelecer conexões entre a nova informação e um conhecimento anterior. Por exemplo, demonstrar como a nova competência da multiplicação está relacionada com o conceito previamente aprendido da adição pode facilitar para o cérebro dos alunos, o estabelecimento de conexões e a aprendizagem do novo conceito. O professor deve ter em mente o importante facto de que o cérebro de um aluno pode segmentar ou categorizar a informação de um modo diferente do cérebro de outro aluno. O professor pode considerar que o mais adequado será agrupar o termo “tigre” sob o ficheiro “felinos”, enquanto o aluno está a pensar em termos alfabéticos. Ambos são lógicos. Os cérebros funcionam segundo uma lógica, mas tal como as impressões digitais, são únicos. Todos tivemos diversas experiências de vida e variados cenários de conhecimento sobre os quais o construímos. Para abranger estas diferenças, os professores deviam utilizar diversos exemplos, metáforas e imagens para aumentar a possibilidade da informação ser relevante para todos os alunos. Uma das maneiras de minimizar estas diferenças nas experiências entre alunos é oferecer tantas experiências reais e autênticas quanto possível. Utilizando novamente o exemplo do tigre, um aluno de uma turma pode ter visto um tigre apenas em desenhos animados, enquanto outro pode ter estado de facto num safari em África a observar os tigres no seu estado selvagem. Se levar a turma numa visita de estudo ao Jardim Zoológico, os alunos partilharão a experiência comum de ver um tigre. Esta experiência pode ser utilizada para facilitar a discussão e as actividades na sala de aula. Logisticamente, os professores não podem proporcionar visitas de estudo diárias por todo o mundo para permitir um conhecimento de fundo alargado. Mas isso não significa que apenas possamos contar com os compêndios. Os manuais proporcionam, certamente, informação importante e útil, mas não oferecem experiências. Os alunos necessitam de um equilíbrio dos dois. Para além das visitas de estudo, os professores podem proporcionar uma aprendizagem experimental utilizando regularmente actividades práticas, simulações, sites da Internet, experiências e oradores convidados.


Eric Jensen,

Obra citada

AFAGO



AFAGO
Para Sarar as feridas

Semear a esperança
Reabrir caminhos
Entretecer a vida


Porque a Humanidade
É um projecto sem fim.


(José Matias Alves)

Com algum atraso aqui também inscrevo as palavras, signo sinal de um projecto que não pode ter fim.

Domingo, Março 22, 2009

Bases de poder e negociação


Várias abordagens procuraram demonstrar a importância do poder na negociação, entre as quais se destacam:

- a teoria do controle-sanção (para a qual o poder constitui um elemento de controle do oponente, na medida em que se possuem recursos suficientes para o sancionar ou castigar, estando implícita a primazia da percepção do poder);

- a teoria da dependência: o poder é determinado pelo grau de dependência entre as partes, sendo que, para Bacharach & Lawler (1981), o incremento da dependência de A em relação a B, incrementa o poder negociador de B e, tomando em consideração a própria percepção do poder, o incremento na dependência de A relativamente a B, faz decrescer o poder atribuído a A e incrementa o atribuído a B.

Note-se que há aqui que salientar outras fontes de poder, para além da recompensa ou castigo, como o poder legítimo, o de referência e o da competência (French & Raven, 1959), evidenciando-se, assim, como o poder pode ser proveniente das condições organizacionais, das próprias relações interpessoais e do papel, do controle da informação, do saber especializado, entre outros.
Desse modo, consideramos pertinente apresentar, em relação às bases de poder, a classificação desenvolvida por French & Raven (1959) e Raven (1965), onde se destacam seis fontes de poder. O poder informacional tem como traço fundamental o ser socialmente independente da fonte, já que a influência exercida depende do conteúdo da comunicação e não da natureza do agente que a transmite. Por seu turno, tanto o poder coercitivo como o poder de recompensa (fundados, respectivamente, na capacidade de mediar punições e recompensas) são socialmente dependentes e requerem capacidade de supervisão dos comportamentos daqueles a que se destinam. O poder de referência e o poder de competência (o primeiro deles fundamentado no relacionamento afectivo entre actores e o segundo assente na atribuição que os actores realizam quanto ao conhecimento ou aptidão especializada de outro), assim como o poder legítimo (o exercício da autoridade alicerça-se na crença de que um dado sujeito tem direito de prescrever o comportamento de outro, podendo a legitimidade ser decorrer da influência de referência ou de competência, da mediação da própria estrutura social e suas instituições) constituem formas de poder que não necessitam da vigilância comportamental dos indivíduos a quem se destina a acção de influência.
Quanto à relação entre a natureza do processo de negociação e o poder dos actores, Greenhalgh (1987) afirma que, tomando como referência a tipologia de French & Raven (1959), parece verosímil que as formas pessoais, persuasivas de poder, como as referências e a especialização, se associem com um processo consensual, enquanto as formas mais dominantes do poder posicional, como a recompensa legítima ou a punição, se associem, por sua vez, com um processo coercivo.
Situando-se, também, para além da mera visão quantitativa do fenómeno em questão, Fisher (1983) afirma que, em contextos negociais, o poder se define como a habilidade de influir sobre a decisão do outro e, por isso, há que considerar outras seis formas de poder real na negociação, que são as seguintes:

- poder da perícia e conhecimento da problemática da negociação;

- poder de uma boa relação, através de uma comunicação fluída e eficaz e de uma determinada confiança;

- poder proveniente da posse de uma boa alternativa para negociar;

- poder de um acordo satisfatório para os interesses das partes;

- poder resultante de acordos que possuam legitimidade, tendo por base os critérios utilizados, as opiniões de especialistas em determinados assuntos, etc;

- poder de um compromisso afirmativo, isto é, expressar a decisão sobre o que se está na disposição de fazer, abrindo-se a possibilidade de discussão e de um eventual acordo.

Para concluir, Serrano (1996b) afirma não só o carácter inegável da importância do poder, mas também que as dimensões quantitativa e qualitativa do poder poderão ser integráveis, apesar da discussão continuar aberta, o que, na sua opinião, permite constatar, no âmbito da Psicologia Social, alguns problemas de definição e semântica que subjazem à análise do próprio fenómeno.


Pedro Cunha

Obra citada infra

Ver

Por último, considerando que a presente investigação poderá constituir uma interessante contribuição para a problemática da perspectiva psicossocial sobre o conflito e a negociação, parafraseamos Popper (1992, p. 219), quando refere que,

"Para concluir, penso que só há um caminho para a ciência ou para a filosofia, neste caso: encontrar um problema, ver a sua beleza e apaixonar‑se por ele; casar e viver feliz com ele até que a morte vos separe – a não ser que encontrem um outro problema ainda mais fascinante, ou, evidentemente, a não ser que obtenham uma solução. Mas mesmo que obtenham uma solução, poderão então descobrir, para vosso deleite, a existência de toda uma família de problemas‑filhos, encantadores ainda que difíceis, para cujo bem‑estar poderão trabalhar, com um sentido, até ao fim dos vossos dias."

Final da obra de
Pedro Cunha. Conflito e Negociação. Porto:ASA

Auto

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Ponte

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Quinta de Pentieiros

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Paisagem

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Sábado, Março 21, 2009

25 de Março

O final da crónica de hoje de Miguel Santos Guerra:

Día 25 de marzo. Debería ser el último de la historia. Porque ya no fuese necesario luchar contra la multiforme e insidiosa violencia de género, contra la opresión y la discriminación. Me temo que no va a ser así. Me temo que el próximo año tendremos otra vez que lamentar la muerte y el dolor de muchas mujeres. Y el aprendizaje del horror que los niños y las niñas realizan. Porque la violencia nos convierte a todos en víctimas, aunque de distinta naturaleza. A los verdugos porque se envilecen, a sus víctimas porque sufren o mueren y a los espectadores porque aprenden a practicar o a temer la violencia. Por eso es tan de agradecer la lección del profesor Neira. Una lección que se nos ofrece a través de la forma más bella y más eficaz de autoridad: el ejemplo.
Cada persona debería decir, para que la situación sea mejor el 25 de marzo del próximo año: “Por mí no quedará.: Estaré en esa causa, en esa lucha, en esa noble tarea con toda mi rabia, con toda mi energía y con toda mi esperanza”.

Sexta-feira, Março 20, 2009

A (OUTRA) AVALIAÇÃO ETNOGRÁFICA

O objectivo principal da avaliação, tal como aqui a entendemos, é conhecer, como e porque funcionam de um determinado modo as escolas, para compreender e explicar a sua natureza (formulação de teorias) e para melhorar a sua prática, enriquecendo a tomada de decisões.
Para melhorar a prática, é preciso conhecê-la profundamente. Reconstruir a realidade numa perspectiva crítica não só supõe a sua contemplação asséptica e a sua descrição rigorosa; é também necessário interpretá-la, saber onde estão as raízes dos comportamentos, as causas das actuações, os efeitos do desenvolvimento curricular (tanto explícito como oculto).

No campus da Universidade de Norwich, os alunos de Laurence Stenhouse plantaram uma árvore como homenagem póstuma. Na placa situada na base da árvore escreveram esta afirmação chave da obra do autor inglês: “São os professores aqueles que, no final, poderão mudar o mundo da escola, compreendendo-o”. É a compreensão profunda do fenómeno educativo que acontece na escola que provocará a transformação e a mudança em profundidade.

Não importa muito chegar a conclusões genéricas do tipo “esta escola
funciona bem” e menos ainda realizar afirmações como “esta escola é melhor do que aquela”. Interessa-nos analisar a realidade da escola, saber que fenómenos nela se desenvolvem, porque se produzem, que repercussões têm. Para isso necessitamos:

1. TER EM CONSIDERAÇÃO A IMPORTÂNCIA DO CONTEXTO

1.1. O contexto diacrónico, dado que a escola não pode ser entendendida sem a sua história. A escola é o que é hoje, funciona como funciona, porque teve um passado concreto. Podem entender-se as coisas que acontecem nele se forem tidos em conta os antecedentes imediatos. Um conflito não pode ser compreendido sem avaliar as causas que o provocaram.

Numa escola particular que conheço, o titular expulsou no mês de Julho 30 dos 40 professores que faziam parte do corpo docente. Poderia compreender um avaliador externo o ambiente da escola, no inicio do ano lectivo seguinte, sem ter em conta o sucedido, quando esse facto estava a condicionar absolutamente toda a realidade?

1.2. O contexto sincrónico, dado que os códigos de uma escola (linguísticos, comportamentais, ideológicos, etc.) são diferentes. O contexto estará determinado por elementos diversos, uns de carácter interno (configuração do
corpo docente, ideário, estatuto social dos alunos) e outros de carácter externo
(localização, classe social das famílias, natureza do meio...).

“A conduta humana – diz Brofrenbremer – está influenciada significativamente pelos ambientes nos quais ocorre” (Brofrenbremer,1976)

2. ENFATIZAR O VALOR DAS RELAÇÕES E INTERCÂMBIOS DE CARÁCTER PSICOSSOCIAL

Nos intercâmbios, consolida-se toda a acção educativa. A escola está atravessada por uma rede de ligações interpessoais de diversos tipos: de autoridade, de submissão, de ensino/aprendizagem, de informação, de transacção económica...
Estas relações são estabelecidas dentro da sala de aula, mas também fora dela. Não se pode circunscrever toda a comunicação à esfera da sala de aula, já que na escola se estabelecem muitas relações, algumas das quais condicionam as que se produzem na sala de aula. E, dentro da sala, nem todas as transacções ou intercâmbios se desenvolvem sobre conteúdos de carácter formal nem, claro está, com conteúdos de aprendizagem regulamentada.
Toda a rede de relações conforma o clima institucional no qual se
desenvolve a acção.

«As imagens que as pessoas tem dos outros, delas próprias e de cada aspecto do seu mundo são os factos sólidos da sociedade. Na percepção do seu mundo, o homem é subjectivo. Selectivamente conhece, interpreta e atribui significados no seu mundo e, então, actua consequentemente. Os factos sólidos da sociedade são essas percepções, definições, interpretações e significações»( Dodge e Bogdan, 1974). (Sublinhado meu)

3. INTERPRETAR REPRESENTATIVAMENTE OS FACTOS

Não é suficiente fazer a descrição minuciosa dos factos. Não é suficiente uma simples análise operacional. O factor chave dentro da comunidade social é a interpretação representativa dos fenómenos.
A interpretação representativa transcende e supera a simples enumeração dos fenómenos. E supõe uma análise que trabalha com símbolos e valores.

“A investigação interpretativa amplia a consciência de uma situação para além do simples conhecimento proposicional, até ao âmbito dos sentimentos, das simpatias silenciosas, dos desejos inconscientes e dos usos quotidianos não examinados, aprofundando a nossa compreensão dos ambientes organizativos e sociais” aponta Vax (1971) e acrescenta:
“Um investigador de campo que explora um povo estranho consegue perceber imediatamente que eles compreendem o que se está a dizer e a fazer, mas nós não. Um sujeito pode efectuar um gesto do qual todos os seus companheiros se riam. Eles partilham a compreensão do que o gesto significa, mas o investigador não. Quando ele também o partilha, começa realmente a compreensão”.

Torna-se necessária, pois, a interpretação representativa dos factos, porque estes constituem uma linguagem carregada de significados.

4. DESTACAR O VALOR DOS PROCESSOS, NÃO SÓ (AINDA QUE TAMBÉM) O DOS RESULTADOS

Importa ter em conta como são feitas as coisas, como se desenvolve a actividade, como se relacionam as pessoas, como se organiza o complexo mundo dos professores, como se desenvolve o processo de ensino/aprendizagem, como são tomadas as pequenas e grandes decisões.
Não nos importa tanto quantas coisas são feitas, quantos alunos passam, quantas decisões são tomadas, quantos êxitos são atingidos. Não é que não tenham importância os resultados conseguidos, senão que a melhor forma (talvez a única) de valorizá-los devidamente é saber como acontecem.

5. UTILIZAR A OPINIÃO DOS PROTAGONISTAS DA ACÇÃO

Apesar de concebermos a necessidade de realizar uma avaliação externa da escola, será necessário contar com a apreciação dos professores, dos alunos e dos pais que constituem a comunidade escolar.
São eles quem realmente conhece os factos por dentro e quem domina as chaves da sua interpretação. A cultura da escola pode ser decifrada
pelos membros da mesma.
Se os protagonistas mantêm uma atitude indiferente ou de rejeição face ao processo avaliador, dificilmente se poderá obter uma informação fidedigna e, certamente, de pouco servirão os melhores resultados da avaliação para melhorar o profissionalismo dos professores e para influenciar positivamente a posterior tomada de decisões. Agora, também é verdade que essa negação ou essa indiferença são uma parte substancial da Instituição.

6. MANTER UMA VISÃO ESTRUTUTAL DA ESCOLA

A análise parcelada de uma realidade complexa apresenta traços bastante marcados de distorção. Não se pode entender, por exemplo, o que acontece numa sala de aula sem se ter em conta as características da organização geral da escola; não se pode entender a actuação de um director sem se conhecer a atitude dos professores ao elegê-lo; não se pode compreender o âmago de um conflito entre dois grupos de professores sem se saber quais são as causas que o desencadearam.
A escola é um todo e não podemos avaliá-la por parcelas sem correr o risco de que a explicação fique distorcida ao descontextualizá-la. Não só porque umas coisas dão sentido e plenitude a outras, mas também porque um fenómeno isolado tem, inclusive, distinto significado em contextos diversos. É provável que a discrepância de um professor perante a direcção da escola tenha um significado diferente numa escola particular e numa pública, por exemplo.
Quando ao sairmos de um túnel lemos na tabuleta informativa a expressão “DESLIGUE OS MÁXIMOS”, devemos ter em conta o contexto no qual se situa a leitura: se for de dia, fazemos bem em desligar as luzes do veículo; se for de noite, deveremos dar por omissa a advertência.
Uma vez conhecido o contexto podemos realizar uma FOCALIZAÇÃO PROGRESSIVA concentrando-nos num determinado aspecto que nos interessa aprofundar. É o efeito zoom ou de travelling óptico aplicado à análise da realidade. Imaginemos que, ao realizar a avaliação da escola, nos encontramos com um conflito de autoridade. Se desejarmos aprofundar a sua análise, polarizamos a atenção e o esforço no estudo das causas, das suas dimensões, das suas consequências, da sua duração, da sua profundidade. Mas só poderemos compreender o fenómeno se o situarmos nas suas coordenadas etiológicas e de desenvolvimento.
Pode acontecer que o zoom tenha sentido inverso (que comecemos a estudar um determinado fenómeno da escola, porque o interesse seja exclusivo ou porque a gravidade do problema o aconselha). Nesse caso, será preciso ir ampliando o campo de referência para compreender a realidade que despertou o processo de avaliação.

7. DAR PRIORIDADE À VERTENTE QUALITATIVA DA AVALIAÇÃO

A natureza dos fenómenos que acontecem na escola são de carácter social. Daí que utilizemos perspectivas, métodos, instrumentos e análises de carácter qualitativo. As objecções que se costumam levantar a esta concepção («não existe ciência do particular», «não existe rigor no que é subjectivo», «não existem critérios de contraste», «não há possibilidade de generalizar», “não existe a necessária assepsia ideológica», etc.) têm de ser resolvidas à luz do paradigma de investigação utilizado. Não parece razoável estudar as características de um processo de investigação a partir das condições e exigências de outro. Em qualquer caso, deveríamos exigir do processo as condições que o tornassem rigoroso, coerente e adequado à realidade que exploramos.

«Se o avaliador na procura da verdade ignora estes factos (subjectivos) através da imposição das suas definições no que ele acredita que seja o ambiente de investigação, está a ignorar dados valiosos” (Dodge e Bogdan, 1974).

É frequente tentar justificar a vantagem do paradigma qualitativo na avaliação/investigação a partir das premissas e das exigências do paradigma quantitativo, o que acarreta um erro, no mínimo, de perspectiva. E, provavelmente, de apreciação, já que parece existir um paradigma fundamental e modélico no qual todos deveriam rever-se. O critério de eficácia e de rigor dos restantes seria o seu grau de semelhança com o modelo.
Cook e Reichdart (1986) deram um contributo interessante a este respeito, concebendo a compatibilidade dos métodos e sugerindo a conveniência do seu uso adequado e, em alguns casos, conjunta.
É preciso elaborar mecanismos de informação com suficiente capacidade de rigor para conhecer o que está a acontecer na escola, como se está a desenvolver o curriculum e o que é que se deve transformar para o melhorar. Neste sentido se pronuncia Gimeno Sacristán (1988):

«Um sistema que não dispõe de mecanismos sobre o que produz fica fechado à comunidade imediata e à sociedade inteira, sem a possibilidade de que esta no seu conjunto, previamente informada, possa participar na sua discussão e melhoria. A política educativa, a avaliação de validez dos curricula vigentes, a resposta das escolas perante a sua comunidade ficam sem contraste possível. Os próprios professores justificam-se com a acomodação à regulação abundante à qual é submetida a sua prática. É difícil que o curriculum que não é avaliado ou que o é somente através da avaliação dos professores entre numa dinâmica de aperfeiçoamento constante. Sem informação sobre o funcionamento qualitativo do sistema escolar e curricular, os programas de inovação ou reformas podem ficar-se pela expressão de um puro voluntarismo ou pela submissão a iniciativas que poderiam não responder a necessidades reais do sistema escolar, dos alunos e dos professores.»

8. CRIAR HABITOS E ATITUDES QUE FAVOREÇAM A AUTOREFLEXÃO SISTEMÁTICA E RIGOROSA

A avaliação que propomos é sempre, em boa medida, auto-avaliação. Quando é externa, porque necessita da participação indispensável dos protagonistas que são consultados pelos avaliadores e, quando é interna, porque são os próprios sujeitos quem se interroga e responde acerca da reconstrução da realidade da escola.
Em todo o caso, para que a avaliação seja um processo de melhoria da realidade, tem de acabar por ser assumida como um elemento capaz de incidir na tomada de decisões na escola. A avaliação imposta ou sofrida terá um resultado estéril e o conhecimento da realidade que se poderá conseguir através dela será pobre e desvirtuado.
Os relatórios que não se solicitam ou que incomodam serão colocados de lado, manipulados ou desacreditados por aqueles que sofrem a imposição e se sentem avaliados.
Despertar e cultivar atitudes de autoreflexão é conseguir pôr em andamento processos de avaliação contínua e sistemática. Faltará, somente, acrescentar o carácter técnico e rigoroso que exige uma avaliação explícita e que se materializa em relatórios.

Miguel Santos Guerra. Tornar Visível o Quotidiano, obra citada

(excerto dedicado à Deloite)