A directora de uma turma do 10º (Curso Profissional de ...) pediu-me socorro. Subi de imediato. Só sabia que eram novos alunos, meio social desfavorecido, percursos escolares (muito) débeis, alguns provenientes dos CEF, cenário negro e expectativas negativas por parte de professores....
Entrei na sala. Pedi à professora que saísse. Só nesse momento decidi o que fazer (é verdade que o leve pânico de não saber o que fazer com aqueles 25 rapazes e uma rapariga talvez tenha activado a minha intuição). Lembrei-me que tinha comigo papel branco. Distribuí-o. Não ficaram assustados. Pelo contrário, fiquei feliz por vê-los cheios de expectativa, quase sorridentes.
Escrevi então no quadro: 1 - O que queres ser? 2 - Indica duas coisas que, na tua opinião, não estão bem na escola. (Não foi bem assim que escrevi mas a ideia foi esta; ainda tenho os papéis mas estão na escola).
Foi um silêncio, uma compenetração total. Escreveram todos e bastante. Textos legíveis mas com bastantes problemas gramaticais. No final, fui recolhendo e lendo. Começámos a conversar. Só tive que referir a necessária regra da tomada de palavra. Estavam diagnosticados os problemas: carga horária tremenda (entram todos os dias às 8:30 e saem às 18:30, apenas com uma tarde livre; vários vêm de aldeias afastadas e com meios de transporte raros); elevado número de alunos nas disciplinas não técnicas; problemas pedagógicos vários; falta de auto-estima; desmotivação...
Alguns não escondiam nos rostos a esperança de as coisas mudarem. Pareciam depositar em mim essa responsabilidade. Prometi voltar a falar com eles quando a campaínha surpreendentemente tocou. Ninguém se levantou. Olhei-os um a um e aí assumimos um compromisso mútuo. No intervalo seguinte vieram ter comigo na alameda da escola onde antes nunca tinha reparado na sua existência. Contentes. Não pude deixar de lhes adiantar algumas soluções encontradas (foi esse o meu compromisso) e outras requeridas ao ME....
O eu que aqui assume este texto não sou eu. É um Director de uma escola. Que teve a lucidez, a sensatez, a intuição para fazer talvez o que é mais importante numa escola: ouvir, escutar. Para compreeender o que se (não) passa. Para perceber que as razões e os sentimentos da "indisciplina" moram, muitas vezes, ao lado das razões "oficiais". Li este texto com a emorme satisfação de ter como colega alguém assim. Humano, sensível, exigente, comprometido. Poderia até dizer que foi a melhor coisa que me aconteceu nesse dia (isto é, ontem).
Quarta-feira, Novembro 11, 2009
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3 comments:
JMA,
Houvesse muitos directores que soubessem ser professores, como parece ser o caso, e a escola portuguesa seria um caso de sucesso.
Caro FSantos,
Seria, certamente, de mais sucesso. Essa variável é, sem dúvida, importante, pode fazer a diferença... mas, como tão bem sabes, não basta...
Abç
Caro JMA, creio que deste texto vem uma lição de como as vezes mesmo não se estando preparado para tudo, quando queremos o melhor para os que servimos conseguimos encontrar respostas adequadas, mesmo que a solução fosse dificil de se ver, os olhos desse Director viram a resposta.
Parabéns a esse Director.
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