Primeiro é conveniente ler o Relatório. E depois tecer as mais duras críticas à ligeireza e irresponsabilidade das explicações dadas para a subida (ténue) das médias nacionais a Matemática (9º ano) e o abaixamento da média na disciplina de Português (também do 9º ano). No primeiro caso, deve-se às medidas do ME. O segundo é assim oficialmente branqueado:
"Tal situação pode estar associada a determinada confiança no processo de ensino e de aprendizagem da Língua Portuguesa, ao longo do ano lectivo de 2005/2006, confiança essa decorrente dos resultados obtidos em 2005"
Ora isto é um completo disparate. Não tem qualquer validade científica. E mesmo no registo do palpite é um absurdo. A única variável dependente que se alterou foi a prova de exame. É a prova de exame que explica o abaixamento generalizado. A este propósito transcrevo a posição que o meu departamento tomou e que enviou aos autoridades competentes (e a que respenderam de forma cordata mas inválida):
O caso do exame de Língua Portuguesa, 9º ano
Esta prova, embora possa estar alinhada com a investigação didáctica de ponta na linha da interpretação / compreensão e produção escritas, apresenta-se genericamente descontextualizada face às especificidades e condições de ensino-aprendizagem bem como a múltiplas dimensões contempladas numa avaliação interna contínua e predominantemente formativa. Isto é, a prova incorre no erro da não validade, ao seleccionar conteúdos que os programas não centralizam e ao ignorar as condições concretas de ensino.
Por outro lado, o enunciado da prova opta por testar conhecimentos no campo do funcionamento da língua que são objecto de reconhecido e público dissenso na comunidade científica e os critérios de correcção impõem procedimentos com base na reprodução de conhecimentos canónicos, descontextualizados e questionáveis (como é o caso da transformação do discurso directo em indirecto e classificação de palavras quanto ao processo de formação).
Por fim, o fechamento dos critérios de correcção, não admitindo outros cenários de resposta e impondo classificações cegas, coloca graves problemas à dignidade profissional dos professores. É certo que a aplicação estrita de critérios serve o propósito louvável da fiabilidade e da equidade. Mas estes dois valores não podem ser superiores ao critério da verdade. E se o texto, a questão e a resposta do aluno forem congruentes e consistentes não são uns quaisquer critérios que devem obrigar os professores a agir contra a verdade e o que o conhecimento concreto evidencia.
Aliás, os resultados obtidos no corrente ano, quando comparados com o ano anterior, só podem ser estruturalmente explicados pela prova em si mesma. O que comprova, uma vez mais, a natureza tendencialmente inválida de um exame que só vem desprestigiar a instância que o elaborou, o validou, nomeadamente os seus autores e o sistema de avaliação externa centralizada. E, mais grave ainda, acaba por lançar o ónus da responsabilidade para as escolas e os professores que não terão ensinado como os autores das provas queriam, ainda que conscientes das implicações provocadas pelo exame .
Ora a explicação oficial é um péssimo serviço à educação portuguesa. Não há qualquer indício ou evidência que permita sustentar tal hipótese. Como profissional da educação considero-me ofendido e a explicação dada é uma vergonha. Mesmo a 'verdade oficial' não pode ignorar os erros que a prova e os critérios de correccão continham. Não se pode encontrar sempre a explicação no elo mais fraco e na zona cinzenta do sistema de escolas.
Sábado, Maio 19, 2007
Do Relatório dos exames nacionais 2006
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1 comments:
Quer me parecer que Maquiavel deverá ter inspirado alguns... Assiste-se, acima de tudo, a uma situação em que, em lugar de criar medidas para combater problemas reais se "arranjam" diagnósticos para colocar em marcha medidas já pensadas ( Plano Nacional da leitura, com todo o mérito que tem). Às medidas já em marcha dá-se-lhes o mérito de quem é juiz em causa própria...
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